Estudo: 40 por cento por cento dos médicos oncologistas inquiridos defendem legalização da eutanásia

19.06.2007 - 14:05 Por Margarida Gomes
O primeiro grande estudo feito em Portugal sobre a eutanásia e o suicídio assistido mostra que 40 por cento dos médicos oncológicos que assistem doentes terminais é favorável à legalização desta forma antecipada de morte em doentes incuráveis, embora apenas 20 por cento admitam recorrer a essa prática, caso a eutanásia venha a ser legalizada.
O estudo, que é anónimo, evidencia também que dos 450 médicos que participaram no trabalho, 5 por cento já receberam pedidos para praticar suicídio assistido. Ao contrário da eutanásia, o papel do médico no suicídio assistido fica-se apenas pela prescrição do medicamento letal.
Realizado pelo Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, o estudo, divulgado hoje, foi desenvolvido em todos os hospitais e unidades de saúde que tratam doentes oncológicos de norte a sul do país e prolongou-se por quatro anos.
Presidente do Serviço de Bioética preocupado com os resultados
Em conferência de imprensa, na Ordem dos Médicos, Rui Nunes, presidente do Serviço de Bioética da Faculdade de Medicina, manifestou a sua preocupação pela percentagem de médicos que é favorável à eutanásia e ao suicídio assistido, o que, em sua opinião, reflecte "uma mudança na forma como estas questões fracturantes passaram a ser encaradas". "O resultado evidencia que há cerca de 40 por cento dos médicos oncológicos que antevêem legalizar a eutanásia em Portugal e isso é, naturalmente, um resultado preocupante, dado que a ética e a deontologia médicas tradicionalmente são contra esta prática no nosso país", declarou Rui Nunes.
Contrário à legalização da eutanásia, mas favorável à realização de um referendo, "precisamente por se tratar de uma questão fracturante", aquele professor observa que a legalização não é a solução. "A nosso ver a resposta não é legalizar a eutanásia é ver porque é que as pessoas pedem a eutanásia e tentar responder a isso", disse ao PÚBLICO Rui Nunes, sublinhando que é preciso reflectir por que é que "uma franja tão significativa da população médica é favorável à legalização da eutanásia".
"Francamente pensei que essa percentagem andasse pelos 10, 15, 20 por cento, chegar perto 40 por cento preocupa-me. Ou há uma mudança de opinião ou há aqui um grito de alerta para que as autoridades de saúde e as autoridades políticas e o legislador mudem", pondera ainda, insistindo no argumento de que "é preciso perceber como é que está a ser feita esta evolução, porque se nada se fizer, temo que estes 40 por cento sejam amanhã 60 ou 70 por cento e depois aí a população vai começar a aderir mais a esta causa".
Os responsáveis por este trabalho consideram, por outro lado, que os resultados mostram a necessidade de se "apostar numa política integrada de cuidados paliativos para doentes terminais". Esta foi, de resto, a principal tónica da intervenção de Rui Nunes, que aproveitou a ocasião para denunciar que "em Portugal existem apenas cinco ou seis unidades de cuidados paliativos", o que é manifestamente pouco. "Estas cinco ou seis unidades não podem ser consideradas uma rede e uma das coisas que o estudo prova é exactamente a inexistência de uma rede de cuidados paliativos para os doentes terminais", lamenta.
Coordenado pelo investigador e médico do Instituo Português de Oncologia, Ferraz Gonçalves, que também esteve presente na conferência de imprensa, o estudo será agora enviado ao Ministério da Saúde e à Assembleia da República.

