As escutas do processo Face Oculta não gravaram a conversa entre Armando Vara, vice-presidente do BCP com o mandato suspenso, e Manuel José Godinho no gabinete do banco, a 25 de Maio, data em que o Ministério Público alega que o gestor recebeu das mãos do empresário de Esmoriz dez mil euros.
Nem terão registado o que Godinho e vários dos arguidos no processo conversaram durante os muitos almoços vigiados pela Polícia Judiciária. Muito se falou das escutas direccionadas e dos avançados meios tecnológicos da Polícia Judiciária, mas várias fontes que consultaram o processo não encontraram qualquer referência a tais intercepções nos seus mais de 20 volumes.
Várias pastas das mais de 10.500 páginas do processo são dedicadas a registos bancários, havendo ainda muitos relatórios de escutas. As transcrições das conversas ocupam uma boa parte do processo, mas, neste momento, algumas ainda só existem em suporte digital e em resumos. Ao longo do processo são ainda visíveis inúmeras fotografias que acompanham os autos de vigilância realizados pelos investigadores. Há ainda documentos dos diversos contratos em que Godinho terá sido beneficiado.
Depois de ter combinado o encontro com Vara, Godinho ligou à secretária dizendo-lhe que precisava de dez mil euros em dinheiro para dali a dois dias. E, no dia seguinte, encontrou-se com ela para receber o dinheiro que levou para Lisboa, a 25 de Maio. Segundo a acusação, terá sido num almoço no Mercado do Peixe que Vara terá solicitado o dinheiro a Godinho. E deste encontro haverá várias fotos, mas nenhuma gravação. O mesmo se passará quanto ao encontro de 25 de Maio, em que Godinho é recebido por Vara no seu escritório do BCP. Os dois são fotografados à entrada do banco, onde Godinho aparece com um envelope que não trará à saída. Mas o que lá se passou só se poderá presumir. O mandado de detenção refere que terá sido a partir do gabinete de Vara que os dois contactaram Paiva Nunes, vogal da administração da EDP Imobiliária, com quem Godinho se encontrou a seguir.
Esta e outras escutas poderão ser essenciais para montar um puzzle que permita ao Ministério Público provar os crimes de que os arguidos estão indiciados. Só cruzando várias provas se pode afastar as dúvidas que, a existirem, beneficiarão o arguido. Para já há um ponto comum entre todos os advogados ouvidos pelo PÚBLICO: a correcção e gentileza do juiz de instrução de Aveiro, António Costa Gomes, palavras que estendem ao procurador titular do inquérito, João Marques Vidal.
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