Estava anunciada como a 1.ª Feira Internacional de Emprego para Profissionais de Saúde. Mas pelo átrio principal e pelas salas do 1.º andar do Hotel Axis, no Porto, pululavam ontem sobretudo enfermeiros, centenas de enfermeiros, entusiasmados com a possibilidade de emigrarem para países como o Reino Unido, a Bélgica, a Arábia Saudita ou mesmo a Austrália.
Os responsáveis das quatro agências de recrutamento que montaram banca na feira não tinham mãos a medir para dar informações e receber currículos. Parece ser um mundo de possibilidades que se abre para um grupo profissional que em Portugal enfrenta o desemprego. A saída para o estrangeiro já começou há algum tempo, sobretudo para o Reino Unido. Foi neste país que Nuno Pinto, da Diáspora dos Enfermeiros (um grupo de emigrados que organizou a feira em conjunto com uma empresa de comunicação, a Bluepoint) aterrou em 2006, com experiência, mas sem qualquer contacto. Ainda penou dois meses a servir à mesa. "Depois, tive dez ofertas, e a dificuldade até foi escolher um hospital", recorda. Aos 33 anos, hoje é enfermeiro especialista em cuidados intensivos num hospital em Kent e a mulher, também enfermeira, trabalha num hospital londrino. Juntos, ganham cerca de 60 mil libras (69 mil euros) por ano, mas mais do que o dinheiro é a satisfação profissional que os faz não pensar, sequer, em regressar. Ele está a fazer investigação e ela vai especializar-se na área que sempre quis, Oncologia Pediátrica. E a vantagem é que a formação é paga pelos hospitais, ao contrário do que sucede em Portugal.
"Este é um mercado que está em crescimento, mas nem todas as empresas [de recrutamento] são idóneas. Temos colegas que foram enganados", avisa a mulher de Nuno, Sandra Marques. Emigrar para o Reino Unido implica, antes de mais, a inscrição na ordem dos enfermeiros britânica e, também, um bom domínio do inglês. E este é um país onde, apesar da crise, ou talvez por causa dela, há hospitais que já aceitam enfermeiros sem experiência profissional, segundo a agência HCL International. Mas com experiência é mais fácil, nota Catherine Irwin, da HCL, que no último ano e meio recrutou mais de uma centena de profissionais para o Reino Unido. Os salários não são muito atractivos, se se pensar que o alojamento é muito caro neste país. No início, um enfermeiro ganha cerca de 21 mil libras antes de impostos (24 mil euros por ano). Os horários são de 37,5 horas semanais, há 27 dias de férias e oito feriados.
Arábia Saudita paga bem
De resto, enfermeiros especialistas com um mínimo de dois anos de experiência profissional podem habilitar-se a voos bem mais altos. A Arábia Saudita é um mercado que está a despontar, garante Ann Griffin-Aaronlahti, directora da Professional Connections, que procura a crème de la crème para dois hospitais de Riade. Ontem, Anne, que ainda só tem cinco enfermeiras portuguesas neste país, quis passar a mensagem de que ir para a Arábia Saudita não é "ir para o meio do deserto" e sobretudo a de que se pode ganhar muito dinheiro - o alojamento e as viagens são oferecidos, não há impostos e as horas extras são pagas a 150 por cento. Há pessoas que conseguem poupar 20 mil euros por ano, assegura. E lembra que há mais de 50 dias livres, se se juntarem os 36 dias de férias ao grande número de feriados. Também com bons salários, a Austrália, para onde esta agência faz igualmente recrutamento, implica "um investimento muito maior". É necessário passar um exame de inglês muito exigente e é necessário pagar viagens e alojamento. Talvez por isso ainda nenhum português tenha sido recrutado.


