Enfermeiros inspiram-se nos professores e pedem "a maior greve de sempre"

27.01.2010 - 08:27 Por Romana Borja-Santos
Hoje Adriana Lopera não vai trabalhar. Até sexta-feira vai aderir à greve de três dias convocada pelos enfermeiros. No que depender desta enfermeira de 30 anos, a trabalhar em Portugal desde 2001, "a vergonha que se está a passar com a classe" não vai continuar. Adriana acumula já nove anos de experiência. Quase uma década que, em termos de ordenado, se reflecte naquilo que considera serem uns "ridículos mil e pouco euros brutos" - o que em valores líquidos não chega aos 900 euros mensais.
Esteve vários anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde fazia vários turnos de noite e conseguia chegar aos 1000 euros. Contudo, diz que se fartou de comprometer a sua vida pessoal e, desde Outubro, trabalha na Unidade de Saúde Familiar a funcionar no Centro de Saúde de Alvalade. No seu serviço são dez enfermeiras e pelo menos oito farão hoje greve, restando apenas os serviços mínimos para assegurar tarefas imprescindíveis à vida dos doentes.
Mas não são só os problemas financeiros que motivam a greve que hoje começa e que deverá gerar grande perturbação nos serviços médicos de todo o país. "Somos licenciados, queremos ter uma profissão digna e ganhar oficialmente um espaço que já ocupamos", diz Adriana Lopera. Uma ideia que está espalhada nos cartazes colocados nas portas dos hospitais e dos centros de saúde e nos panfletos que os sindicatos do sector têm estado a distribuir à população.
Quinhentos euros a menos
As expectativas são grandes. Os sindicatos dizem estar inspirados pela união que os professores mostraram e falam da "maior greve de sempre", a mais longa dos últimos 22 anos, que culminará numa manifestação sexta-feira em Lisboa que prometem ser "histórica". Ali são esperados 15 mil dos 60 mil enfermeiros portugueses, nem todos afectados pela reforma das carreiras em discussão com o Ministério da Saúde.
Para amanhã estão também previstas algumas marchas lentas, nomeadamente na VCI, no Porto. Ao longo dos três dias de greve, as cirurgias, consultas e outros serviços médicos serão afectados.
"Esperamos nesta greve níveis de adesão próximos dos 100 por cento. Estamos muito descontentes com o Ministério da Saúde, que não tem dado uma resposta justa às nossas legítimas reivindicações", explica a presidente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses.
Em causa, diz Guadalupe Simões, está a revisão da carreira da classe. Desde finais da década de 1990 que os enfermeiros são licenciados, e os que tinham um bacharelato tiveram de fazer um quarto ano. Contudo, a remuneração de entrada na carreira é de 1020 euros brutos, menos que para a restante administração pública.
"Não estamos em paridade com os outros profissionais, em que os licenciados entram logo a ganhar 1200 euros. Para além disso, nós pertencemos a uma carreira técnica e, nesse caso, nos outros sectores entram a ganhar mais de 1500 euros", insiste Fernando Rodrigues Correia, presidente do Sindicato Independente dos Profissionais de Enfermagem.
Insatisfação geral
Enquanto permanecerem estes 500 euros de diferença "não haverá acordo e os protestos vão endurecer e subir de tom", promete José Correia Azevedo, presidente do Sindicato dos Enfermeiros, que dá também como exemplo os "1500 euros com que começa um professor ou os 2500 dos médicos e juízes".
Também a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Maria Augusta Sousa, diz que "há uma insatisfação global que se compreende porque não se reconhece o valor acrescentado dos cuidados de saúde prestados pelos enfermeiros". E alerta que "a desmoralização é perigosa para a qualidade dos serviços", em especial depois do investimento feito na carreira por estes profissionais. Por isso, apela ao "bom senso" de todos os intervenientes nas negociações.
Em Setembro, a tutela apresentou uma proposta para subir as remunerações de entrada na carreira para 1200 euros mensais a partir de Janeiro de 2011. Contudo, na segunda ronda negocial, no início de Janeiro, a ministra da Saúde baixou a proposta de entrada dos actuais 1020 para 995 euros até ao ano 2014, altura em que se passaria para a proposta dos 1200 euros.

