O movimento de emigrantes portugueses na Alemanha "Osnabrück Não Desiste" anunciou ontem uma campanha de boicote ao envio de remessas de dinheiro para Portugal, que poderá nos próximos tempos ser seguida noutros países.
Os conselheiros das comunidades portugueses falam em sentimento de revolta devido ao encerramento de postos consulares e aos cortes na rede do ensino do Português no estrangeiro anunciados pelo Governo.
"Quando o nosso país, a nossa pátria, nos vira as costas, vemo-nos forçados a fazer o mesmo", revelou ontem Nélson Rodrigues, coordenador do movimento na Alemanha, à agência Lusa. De acordo com dados do Banco de Portugal, os emigrantes portugueses na Alemanha enviaram, em 2010, 120 milhões de euros para Portugal. No total das comunidades portuguesas no estrangeiro, o valor das remessas ascendeu, no mesmo ano, a 2400 milhões de euros.
Só de França, o país que transfere mais dinheiro por emigrante, Portugal recebeu quase 900 milhões em 2010. E, de acordo com Álvaro Pimenta, conselheiro das comunidades portuguesas em Léognan, há um risco efectivo de surgimento naquele país de movimentos como o de Osnabrück. "Os emigrantes estão indignados" com as medidas do executivo e há já quem fale na suspensão das remessas, assegurou o conselheiro ao PÚBLICO.
As razões partilham-nas com o movimento da localidade alemã. Segundo a Lusa, os representantes dos emigrantes portugueses em Osnabrück consideram a decisão de fecho do vice-consulado local "injusta e baseada em mentiras". E exigem que sejam publicados oficialmente os números relativos a todos os consulados portugueses no país, para que se verifique a produtividade de cada um.
Também em Andorra, onde residem cerca de 13 mil portugueses, há "motivos mais que suficientes" para organizar um movimento deste tipo, garantiu ao PÚBLICO o conselheiro da comunidade no principado. Um desses motivos, avançou, é a subida recente do valor das taxas pagas por cada transferência bancária para Portugal, que influencia directamente as remessas. Para José Manuel Silva, há uma "situação de mal-estar". "Não estão a facilitar-nos as coisas."
E se o encerramento dos postos consulares é controverso, também os cortes no ensino o são. A partir de Janeiro, 49 professores de Português no estrangeiro perderão o emprego - só na Suíça serão 20. E, nesse sentido, afiançou José Rodrigues, conselheiro em Zurique, "é possível que as pessoas se organizem" e as remessas sejam sacrificadas.
O PÚBLICO tentou ontem obter uma reacção do Ministério dos Negócios Estrangeiros a estas posições, o que não foi possível até à hora do fecho desta edição.


