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Editorial: A idoneidade do regime

08.11.2009 - 09:43

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O Estado já falhou por não conseguir prevenir situações como aquelas de que Armando Vara é acusado.

Ainda não passaram dois meses desde que foi eleito e José Sócrates já deve uma explicação aos portugueses. O primeiro-ministro tem de explicar por que razão decidiu o Ministério Público enviar à Procuradoria-Geral da República uma certidão extraída de uma conversa sua com Armando Vara. Tem de explicar sobre o que falou ao telefone com o vice-presidente do Banco Comercial Português e se discutiu a venda da TVI. E em que termos a discutiu. José Sócrates não pode ocultar a face neste assunto. Neste processo, ninguém fala pelo primeiro-ministro. Basta-lhe dizer do que falou. As escutas encarregar-se-ão de confirmar o que disse.

As razões para essa explicação decorrem também do que não aconteceu na última legislatura. Com maioria absoluta no Parlamento, o Governo do Partido Socialista deveria ter aprovado medidas que travassem o pântano que se vive em Portugal com a repetição sucessiva de escândalos sem castigo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os cidadãos nomeados para altos quadros públicos têm de passar por uma audição prévia para provar a sua idoneidade. Em Portugal, o suborno ou o tráfico de influências tende a ficar vezes de mais impune.

O caso de Armando Vara, apesar de decorrer numa empresa privada, é sintomático. Era também ao Banco de Portugal que cabia avaliar da idoneidade de Vara para ocupar o cargo. Ficará sempre a dúvida: não teria já, nessa altura, o Ministério Público indícios que poderiam levar a duvidar da idoneidade de Armando Vara? E, se tinha, comunicou-os ao Banco de Portugal?

A Justiça arrisca-se a passar meia dúzia de anos a tentar culpar Vara. Mas o Estado já falhou porque não consegue evitar situações como aquelas de que o antigo dirigente socialista é acusado. E enquanto não conseguir fazê-lo, o pântano continuará.

O que está em causa é muito mais do que a idoneidade de um homem. É a idoneidade do regime que volta a estar em jogo.

Quem somos? A questão da imigração coloca-nos perante um desafio que é o da nossa própria identidade. No século XXI, a pergunta "quem somos?" já não se refere apenas à busca das nossas raízes, à nossa existência enquanto arquétipo. Refere-se à nossa identidade num mundo globalizado. À forma como nos projectamos no exterior e ao modo como acolhemos e integramos o outro. Matéria em que Portugal foi destacado, num estudo das Nações Unidas, como o melhor entre 42 países. Em Portugal, por exemplo, é mais fácil a um imigrante ilegal ter acesso a cuidados de saúde do que em outros países europeus. Mas um estudo da Universidade Católica, que revelamos nesta edição do PÚBLICO, mostra como as resistências e os preconceitos contra os imigrantes estão longe de ter desaparecido. E são um obstáculo cultural à concretização de políticas de integração cujo mérito é reconhecido fora de portas - e por imigrantes ouvidos por este jornal. A medida da nossa humanidade é a forma como aceitamos o outro. Os passos que estão por dar neste campo são a forma como seremos capazes de nos definir no mundo.

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