É "uma ilusão" que imigrantes em Portugal cometam mais crimes que portugueses

12.08.2008 - 15:44 Por Bárbara Wong
Na noite do assalto à agência do Banco Espírito Santo, em Lisboa, são muitos os curiosos que esperam o desfecho da situação. No momento em que se ouvem tiros, um homem de calções e chinelos nos pés, grita em plenos pulmões: "Matem esses brazucas. Matem-nos a todos". Do outro lado da lona, que rodeia a entrada da agência, o resultado da operação de resgate é: um assaltante morto, outro gravemente ferido e a libertação dos dois reféns.
Na rua, na Internet, nos fóruns de opinião pública dos jornais, televisões e rádios, a nacionalidade dos assaltantes domina os comentários. Muitos são mensagens de ódio e racistas. É comum a associação entre criminalidade e imigração e acontecimentos como este assalto vêm reforçar essa tese. Mas será verdade que os estrangeiros são mais criminosos do que os nacionais? Um estudo, publicado em 2005, responde que não.
Os sociólogos Hugo Seabra e Tiago Santos, com base em dados de 2001, calcularam as taxas brutas de criminalidade, ou seja, o número de condenações por mil indivíduos, dos portugueses e dos estrangeiros, e concluíram que são exactamente iguais se tiver em conta o sexo (masculino), a idade e as condições perante o trabalho: 11 por mil. "A maior criminalidade dos estrangeiros face aos portugueses revela-se assim ilusória", concluem.
"Diariamente, há estrangeiros a ajudar o país a crescer e o que vende são as notícias sobre o envolvimento de estrangeiros na prática de crimes", critica Seabra, lamentando o modo como a comunicação social trata estes temas.
Para Ana Cruz, dirigente da associação SOS Racismo, "não é notícia os assaltantes serem brasileiros". Nos últimos meses, aumentou o número de assaltos e nunca se falou da nacionalidade dos assaltantes, senão agora, justifica. Mamadou Ba, dirigente da mesma associação, condena os fazedores de opinião que "estigmatizam as comunidades migrantes".
O investigador do Centro de Estudos Geográficos Jorge Macaísta Malheiros enumera três casos: o "arrastão", em 2005, quando foi noticiado que um grupo de meio milhar de rapazes de origem africana teria cometido roubos na praia de Carcavelos, facto que a PSP viria a negar um mês depois; o caso dos ciganos da Quinta da Fonte, no mês passado, e o assalto de quinta-feira.
Todos têm "coincidências interessantes": envolvem pessoas de minorias étnicas; passaram na televisão em directo e repetidamente; e aconteceram no Verão, altura em que há menos notícias, logo mais espaço para estes acontecimentos. "São fenómenos pontuais que ganham grande visibilidade" e que acabam por evidenciar "expressões encobertas de racismo", continua o investigador.
"Há atitudes xenófobas de pessoas que dizem 'Volta para a tua terra', mas são fruto de sentimentos negativos e de frustração", testemunha Eliane Bibas, dirigente da Casa do Brasil. A comunidade não se revê no assalto, que Bibas classifica como um "caso isolado": "Um fenómeno negativo pode ter mais repercussão do que todas as questões positivas e benefícios que os brasileiros trazem para o país", lamenta.

