O conhecimento das regras das religiões é importante para as relações entre pessoas de credos diferentes. Mas, de acordo com as declarações de vários muçulmanos que vivem em Portugal, os católicos e os islâmicos conseguem viver casamentos felizes e ter vidas normais.
Alguns muçulmanos consideraram “infelizes” as declarações do cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, que alertou os jovens portugueses para o “monte de sarilhos” que acarreta o casamento com muçulmanos.
"É possível ter uma vida feliz entre um católico e um muçulmano", disse Amílcar Mahomed que estava à porta da Mesquita Central de Lisboa. Apesar de não estar casado, Amílcar Mahomed tem um irmão que vive com uma católica e outro que está noivo.
Para o moçambicano que vive em Portugal há mais de 30 anos em Portugal, "não é obrigatório" casamentos entre muçulmanos, mas é "necessário" conhecer as regras para "não haver incorrecções e não se entrar em situações de pecado".
Segundo Amílcar Mahomed, hábitos alimentares e de higiene são algumas das regras que se deve conhecer para ser ter "um casamento feliz". No entanto, admitiu que é "sempre preferível" um casamento entre muçulmanos. Até porque depois vêm os filhos.
Os filhos devem poder optar
"O que é obrigatório é que os filhos tenham acesso à religião islâmica e quando atingem a maioridade devem poder optar", disse, adiantando que em Portugal já se sentiu discriminado, mas considera "normal para quem vive num país que não é 100 por cento islâmico".
Abdul Abdulaziz vive em Portugal há 25 anos e considera "normal" os casamentos entre católicos e muçulmanos, acrescentando que conhece vários casais mistos, em que cada um mantém a sua religião. "A religião islâmica diz que se pode casar ou fazer um casamento com uma não muçulmana e ela pode manter a religião católica. Em Portugal há vários casos e nunca houve qualquer problema", afirmou à Lusa Abdul Abdulaziz.
Para o moçambicano, as declarações do Cardeal Patriarca são "pura demagogia" e "infelizes". Abdul Abdulaziz é casado com uma muçulmana, mas confessou que não tinha nenhum problema em ter um relacionamento com uma mulher de outra religião.
Em tom de graça até chegou a dizer: "a religião muçulmana permite que um homem se case com quatro mulheres desde que haja consentimento da primeira. Em África é comum esta situação, mas em Portugal não. A civilização também é outra".
Vivem cerca de 34 mil muçulmanos no território nacional. Os primeiros vieram de Moçambique, dominavam a língua e rapidamente adquiriram um estatuto social elevado. Depois vieram os muçulmanos da Guiné-Bissau, a que se juntaram mais recentemente os oriundos do Magrebe, Senegal, Paquistão, mas também da Índia.
Lusa
Rute e Abdelilah Suisse foram apanhados de surpresa pela mensagem de José Policarpo. O casal não se revê nas declarações e lamenta a “intolerância” do cardeal-patriarca em relação aos muçulmanos.
A família de Rute não é católica mas “sempre celebrou todas as festas religiosas” e Abdelilah Suisse é marroquino e pratica o islamismo. Conheceram-se na Universidade do Porto, quando Rute frequentou um mestrado em que Abdelilah era professor.
Apesar de virem de um contexto religioso diferente, nunca tiveram problema em interligarem os hábitos. A prova disso é que Abdelilah celebra o Natal e a Páscoa com a família de Rute, e Rute por vezes faz jejum durante o Ramadão.
"Nunca tive problemas nenhuns com a família dele. Nunca nada me foi imposto nem fui pressionada a fazer nada. Aceito perfeitamente os usos e costumes dele e ele aceita os meus", garante Rute. É por vontade própria que no Ramadão, às vezes, decide acompanhá-lo e também faz jejum, "mas não todos os dias".
Rute disse ter ficado "chocada" com as declarações de cardeal-patriarca, além de garantir que não se revê "minimamente naquelas afirmações". Rute já esteve na terra do marido, em Marrocos, e garante ter sido bem recebida por todos os familiares. E o futuro reflecte isso, mesmo estando casados há dois anos pelo civil, Rute e Abdelilah têm planos de "um dia fazer um casamento marroquino".
Abdalilah foi mais crítico com a declarações de José Policarpo: "A minha primeira reacção foi dar uma gargalhada irónica, mas lamento que um representante da Igreja Católica faça declarações cheias de adjectivos contra os muçulmanos. Está a mostrar uma grande intolerância quando devia transmitir uma mensagem de humanidade e paz".


