Já lá vão duas décadas – quase o período de uma geração. Mas no vigésimo aniversário do acidente nuclear de Tchernobil, o pior de sempre da história da utilização civil da energia atómica, há motivos tanto para evocações, como para inquietudes.
A ferida do acidente ainda está aberta, a começar pelos seus efeitos. A explosão do reactor 4 da central nuclear de Tchernobil, localizada na Ucrânia, dia 26 de Abril de 1986, lançou uma nuvem radioactiva sobre vários países da Europa. A maior parte precipitou- se sobre a Bielorrússia, Ucrânia e Rússia.
Ninguém é capaz de dizer, ao certo, quantas pessoas morreram ou virão a morrer, devido à radiação. A polémica dos números tem contornos não só científicos, como políticos, e não ficará resolvida tão cedo. Mas há dados consensualmente aceites, em especial o aumento brutal no número de casos de cancro de tiróide, uma tendência que ainda se manterá por vários anos.
O legado ambiental da explosão do reactor ainda hoje é mensurável, no material radioactivo depositado em milhares de quilómetros quadrados de solos, no fundo dos rios e lagos, nos animais e nas plantas. O fardo económico permanece brutal: os custos com Tchernobil consomem, anualmente, cinco a sete por cento do PIB da Ucrânia e seis por cento do PIB da Bielorrússia. Só a nova cobertura de protecção do reactor 4, uma gigantesca estrutura que vai envolver o sarcófago construído às pressas depois da explosão, custará à Ucrânia cerca de mil milhões de euros.
Vinte anos depois de Tchernobil, a pergunta natural que se coloca é se algo semelhante pode voltar a acontecer. A explosão do reactor resultou de uma conjugação de erros humanos com uma tecnologia em si insegura. Tchernobil era uma central de tipo RBMK, um modelo soviético com a vantagem de utilizar urânio pouco enriquecido como combustível, mas com uma debilidade que se mostrou fatal no acidente: abaixo de determinada potência, o reactor torna-se instável.
Foi o que aconteceu. Durante um teste, entre outras falhas humanas, foram desligados vários sistemas de segurança do reactor 4. A potência foi reduzida para um nível abaixo do limite crítico e, a partir daí, os operadores perderam o controlo do reactor. Subitamente, a potência subiu a 100 vezes o nível máximo e deram-se as explosões que libertaram uma grande quantidade de material radioactivo.
Depois do acidente, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) recomendou uma série de alterações nos reactores de tipo RBMK. Uma delas foi a de reduzir em alguns segundos o tempo de inserção das barras de controlo, capazes de parar totalmente a actividade do reactor, numa emergência. Em Tchernobil, as barras não tiveram tempo suficiente para evitar o acidente. “A AIEA está firmemente empenhada em que um acidente como este não volte a acontecer”, afirma Tomihiro Taniguchi, director adjunto da agência, citado pela Associated Press.
Mesmo com as alterações na tecnologia, os reactores RMBK não são vistos como completamente seguros. Para entrar para a União Europeia, a Lituânia comprometeu-se a encerrar os dois reactores do género que possui em Ignalina. Um já não está operacional e o outro parará em 2009.
A maior parte das centrais nucleares europeias utiliza outra tecnologia (PWR), que não tem as debilidades dos reactores RMBK. E as novas centrais de terceira geração (EPR), como a que está a ser construída na Finlândia, têm ainda mais mecanismos e sistemas de segurança. “São dez vezes mais seguras do que as de segunda geração”, afirma Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação no anterior governo, actualmente envolvido num projecto para a construção de uma central nuclear em Portugal.


