Doentes com cancro seguidos por computador desde o diagnóstico

20.01.2011 - 15:52 Por Catarina Gomes
A ideia é criar uma plataforma informática nacional que siga o doente com cancro ao longo do tempo, desde o primeiro registo, com o diagnóstico, até às várias fases do tratamento. O coordenador nacional para as Doenças Oncológicas, Manuel António Leitão da Silva, quer que a responsabilidade do acompanhamento do doente caiba ao primeiro hospital onde este bata à porta, mesmo que seja uma unidade pequena e mesmo que depois seja tratado noutro local.
Sabe-se que um quinto dos doentes com cancro é operado fora do tempo considerado clinicamente aceitável, que nesta área pode ir até um mês, porque já existe uma base de dados nacional chamada Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia. O que não se sabe é quanto tempo esse doente esteve à espera desde o diagnóstico - quanto tempo vai demorar até iniciar radioterapia ou quimioterapia. Com uma futura plataforma "pode-se controlar o diagnóstico e o início do tratamento", diz Leitão da Silva, que assumiu o cargo há um mês e é também director do Instituto Português de Oncologia de Coimbra.
A proposta de criação da ferramenta informática, que está a ser idealizada e ainda não foi adquirida, foi já apresentada à ministra da Saúde este mês, assim como outras linhas orientadoras que tem para a área, refere o médico, dizendo que recebeu a concordância "para prosseguir".
O médico diz que neste momento se pode perder o rasto ao doente. O objectivo é que "este doente nunca mais fique perdido no meio do Sistema Nacional de Saúde". "Alguém tem que seguir este doente - tem que haver o hospital-casa."
Mas a batata quente que herdou dos seus antecessores é mesmo a definição da nova rede de referenciação dos serviços de oncologia. Depois de meses de discussão pública e polémica em torno de um documento que supostamente implicaria o fecho de várias unidades de tratamento de cancro com base no número de casos ali atendidos - no mínimo, teriam que ter 500 episódios de internamento ou 250 doentes por ano -, Leitão da Silva diz que não vai ligar a números.
Uma reforma adiada
Há quase uma década que começaram as tentativas de reorganizar estes serviços. Em 2002 foi criada no papel uma rede nacional de referenciação hospitalar que previa pouco mais de três dezenas de unidades e serviços, mas que nunca arrancou. O cenário actual é de grande fragmentação: no final de 2008, havia 55 hospitais a tratar cancro, alguns com apenas umas dezenas de casos por ano.
Questionado sobre se os hospitais que agora tratam cancro vão continuar a fazê-lo, responde que isso acontecerá nas unidades "que têm essa capacidade". E quem decide quais são? "Os hospitais é que sabem o que têm capacidade para fazer. A responsabilidade é do hospital e tem que ser confirmada e apadrinhada pela Administração Regional de Saúde. É mais importante eles sentirem que têm capacidade para fazer com segurança do que impor números máximos ou mínimos. Eu terei sempre a última palavra", explica. Leitão da Silva diz que em vez de trabalhar com números vai visitar os hospitais. A Administração Regional de Saúde do Norte deverá ser a primeira onde pensa começar a trabalhar.
Um dos requisitos para o tratamento de cancro com qualidade é haver reuniões colectivas de decisão terapêutica, com médicos das especialidades relevantes para cada caso, e um dos problemas é a falta de clínicos nas unidades. No caso dos hospitais mais pequenos onde haja capacidade para decisão terapêutica, recorrer-se-á a especialistas por videoconferência, nota.

