Discussão sobre coesão territorial deverá contribuir para futuros critérios dos fundos estruturais

06.02.2009 - 09:19 Por Paulo Miguel Madeira
A discussão pública do Livro Verde sobre a Coesão Territorial Europeia (publicado pela Comissão Europeia em Outubro), em curso em todos os Estados-membros até ao fim do mês e que hoje tem uma sessão oficial em Lisboa, vai ser importante para ajudar a dar forma à futura política de coesão, que deverá vir a afectar os critérios de distribuição pelos Estados-membros da UE das verbas dos futuros fundos estruturais para o período 2013-2020.
O Tratado de Lisboa, de 2007, reconhece pela primeira vez a coesão territorial como a terceira dimensão da política de coesão, a par da coesão económica e da coesão social, consagrando assim ao mais alto nível que haverá novos aspectos a ter em conta quando da nova definição dos instrumentos financeiros para concretização desta política. O Tratado não está ainda em vigor, mas estas preocupações já estão vertidas em vários documentos, chegando agora à discussão pública através deste Livro Verde.
O processo de discussão e a futura tomada de decisões parecem estar numa fase pouco mais que embrionária, mas uma coisa parece já provável – o critério do PIB (produto interno bruto) por habitante poderá perder peso como medida que define o que cada país e/ou região pode receber, em função de outros aspectos que se perfilam já na agenda territorial. É prematuro avaliar até que ponto isto poderá ser positivo ou negativo para Portugal.
A ideia de coesão territorial não tem ainda uma definição precisa no vocabulário europeu, sendo esse aspecto justamente a primeira questão lançada para debate no Livro Verde publicado pela Comissão Europeia em Outubro, logo seguida dos elementos adicionais que a coesão territorial poderia trazer para a política de coesão económica e social que actualmente se pratica na UE.
O facto de o conceito não estar ainda definido ao nível europeu não impede contudo que se perspective já nalguma medida as dimensões que deverá abranger e de algum modo o sentido em que poderá enformar as futuras políticas de coesão. Isso decorre do texto do Livro Verde, bem como dos documentos que o precederam: a Agenda Territorial da União Europeia, de Maio de 2007 (adoptada durante a presidência alemã), e o 1º Programa de Acção para a Implementação da Agenda Territorial da UE, de Novembro desse ano (adoptado durante a presidência portuguesa).
O próprio conceito está em discussão pública
No Livro Verde sobre Coesão Territorial Europeia diz-se que “o conceito de coesão territorial permite interligar eficácia económica, coesão social e equilíbrio ecológico, fazendo do desenvolvimento sustentável o pilar da elaboração de políticas”, e que este debate “tem lugar em paralelo e sem prejuízo da actual reflexão da Comissão sobre a revisão orçamental”.
O documento produzido, com cerca de uma dúzia de páginas (mais anexos com informações técnicas e mapas), aborda também a relação da coesão territorial com a programação de políticas sectoriais na União. Nesse domínio, são citados os exemplos da política de transportes e energética, da ligação à internet de alta velocidade, da política agrícola comum (PAC), da Estratégia Europeia para o Emprego ou dos impactos da política ambiental na implantação local das actividades económicas.
Na sessão de hoje, promovida pelo Ministério do Ambiente do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, participam o ministro do Ambiente, Francisco Nunes Correia, e a secretária de Estados dos Assuntos Europeus, Maria Teresa Ribeiro. Haverá depois uma apresentação do Livro Verde e um enquadramento da questão, seguidos de uma mesa redonda com vários especialistas.
Alguns objectivos da coesão territorial
Apesar de não haver uma definição oficial europeia de “coesão territorial”, pois a própria definição do conceito foi posta em discussão pública, ela vislumbra-se já a partir das preocupações expressas e dos objectivos sugeridos nos documentos publicados pela Comissão.
O reforço da coesão territorial perspectiva-se assim com prioridades como “o desenvolvimento de um sistema urbano equilibrado e policêntrico”, de uma “nova relação urbano-rural”, da “garantia de paridade no acesso às infra-estruturas e ao conhecimento”, de “desenvolvimento sustentável” ou de “protecção da natureza e do património cultural” (segundo a Agenda Territorial).
Isto poderá passar, de acordo com o mesmo documento, pelo alargamento das zonas de crescimento “para além da área económica central da UE”, e ainda, já segundo o Livro Verde, pela construção de ligações rodoviárias ou ferroviárias entre as cidades, pelo acesso a serviços como a saúde ou a educação, que “ainda é um problema nas zonas rurais”. Mas também pela necessidade de cooperação face aos “problemas ambientais associados a mudanças climáticas, inundações, declínio da biodiversidade, poluição e deslocações diárias”. P.M.M

