Direcção da ETA ordenou "estabelecer base em Portugal"

06.02.2010 - 09:16 Por Nuno Ribeiro, em Madrid
Depois da prisão pela GNR, em Janeiro, de dois etarras em Torre de Moncorvo e Vila Nova de Foz Côa, as autoridades espanholas viram confirmadas ontem, em Casal de Avarela, as suspeitas de que os etarras recorrem a Portugal para preparar atentados em Espanha. Há anos que Portugal aparece na mira da ETA. As ordens de Garikoiktz Aspiazu, aliás "Txeroki", antigo chefe da organização já detido, foram claras: "Realizar um estudo de possíveis infra-estruturas em Portugal para ali estabelecer uma base permanente de actuação".
Foi na sua declaração ao juiz Baltazar Garzón de 27 de Julho de 2008 que Jurdan Martitegi, sucessor de "Txeroki" e também já preso, fez esta revelação. Martitegi confirmou que, acompanhado por Arkaitz Goicoechea, esteve em Portugal no Verão anterior. "Alugando casas e arranjando documentação, bem como matrículas de carros e motos portuguesas para posterior falsificação." A estada, segundo referido ao juiz, baseou-se em Lisboa e arredores.
A 21 de Julho de 2007, uma carrinha Ford Focus alugada em Lisboa é abandonada nos arredores de Huelva, na auto-estrada que liga à ponte do Guadiana, quando militares da GNR e da Guardia Civil realizavam uma operação conjunta. No interior do carro estavam 130 quilos de explosivos, detonadores e temporizadores, envoltos em sacos com o anagrama da ETA.
Pouco depois, em 24 de Agosto, um Seat Ibiza de matrícula portuguesa foi utilizado na fuga do atentado contra a casa-quartel da Guardia Civil de Durango, no País Basco. Após a explosão de uma carrinha-bomba, o homem que accionou a deflagração fugiu neste carro que fora alugado em 14 de Maio em Quarteira, no Algarve, e levantado no Aeroporto Sá Carneiro, no Porto.
A utilização destes veículos levou à constituição de uma equipa luso-espanhola para investigar o alcance da presença da ETA em Portugal. "Há a possibilidade de a ETA ter uma pequena infra-estrutura em Portugal, concretamente no Algarve, e já acordámos montar uma equipa de investigação conjunta", anunciou, então, o ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba.
Mais recente, em 4 de Fevereiro do ano passado, foi a descoberta de um Fiat Brava junto a instalações militares nos arredores de Salamanca. O carro fora alugado em Agosto de 2008, em Faro, e a falha do temporizador impediu a sua explosão. A análise da quilometragem do veículo levou os investigadores a concluir que foi utilizado num atentado em Málaga.
Já em 2003, a Europol alertara que os etarras podiam constituir um "recuo" em Portugal. Uma estrutura de apoio estável que albergasse, em território nacional, activistas da organização, que fariam raids de atentados terroristas contra interesses turísticos espanhóis na Andaluzia. O aviso da polícia europeia partia de uma experiência: no Verão de 2002, dois elementos do "comando Argala" - Óscar Ortiz e Antoni Erazo, após cometerem atentados em Fuengirola, Marbella e Mijas, estâncias turísticas andaluzas - estiveram em Portugal. Então, como agora, a Espanha exercia a presidência rotativa da União Europeia.

