Dia Mundial Sem Tabaco: médicas fumam o dobro das outras mulheres

31.05.2005 - 08:27 Por Catarina Gomes, PÚBLICO
Há cada vez mais médicos a deixar de fumar, mas o mesmo não acontece com as médicas, que fumam mais do dobro da média das mulheres portuguesas. São dados preliminares da tese de mestrado intitulada Os médicos fumadores em Portugal que hoje são apresentados em Lisboa a propósito do Dia Mundial Sem Tabaco.
No ano em que a Organização Mundial de Saúde dedica este dia aos profissionais de saúde contra o tabagismo, os dados deste estudo revelam que a prevalência de fumadores na amostra de 816 médicos inquiridos (média de idades: 46 anos) é de cerca de 17 por cento, andando próximo dos 19 por cento a nível nacional, explica o seu autor, o médico de família Miguel Natal.
As maiores diferenças em relação à população em geral surgem na distribuição por sexos: 16 por cento dos clínicos dizem ser fumadores, um valor abaixo da média nacional para os homens (estimada em 20 a 23 por cento); já no universo das médicas, 18 por cento dizem ser fumadoras, sensivelmente o dobro do valor nacional das mulheres, que anda entre os oito e 10 por cento, continua o investigador, que está a desenvolver a sua tese no mestrado em ciências da educação na área da saúde na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa.
Como explicar esta diferença entre sexos? O autor do estudo explica que em Portugal o tabagismo entre as mulheres continua a subir e que as médicas seguem este padrão. O cenário é diferente do que acontecia em 1994, quando uma investigação junto de médicos de família apresentava valores de prevalência maiores nos homens (41 por cento) do que nas mulheres (30 por cento), referem dados fornecidos pela organização não governamental Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo, que organiza o evento.
O professor de medicina preventiva da Faculdade de Medicina de Lisboa Luís Rebelo, que vai moderar a discussão em torno do estudo, afirma que há outros trabalhos que demonstram que as mulheres fumam sobretudo para aliviar o stress e os homens mais pelo prazer, o que pode querer significar que as médicas sofrem mais de stress, devido à acumulação com outras tarefas.
Ao mesmo tempo, os estudos internacionais demonstram que é mais difícil ao sexo feminino parar de fumar. No trabalho a apresentar hoje - que não é baseado numa amostra cientificamente representativa da população médica - demonstra-se ainda que, uma vez adquirido o hábito, "há muito mais médicos a deixarem de fumar do que médicas".
Campanhas dirigidas a estudantes de Medicina
Conscientes do seu papel de exemplo, quase todos os médicos inquiridos (96 por cento) afirma não fumar à frente dos doentes; os poucos que o fazem (1,5 por cento) são os de faixas etárias mais altas, afirma Miguel Natal. Já no grupo dos médicos ex-fumadores (cerca de 29 por cento), são oito por cento os que confessam que fumavam à frente dos pacientes, acrescenta o clínico, que apresenta o estudo hoje às 18h00, na Ordem dos Médicos, em Lisboa.
Miguel Natal, que é médico de família no centro de saúde do Seixal, refere que os dados recolhidos revelam que metade dos médicos iniciou o seu hábito ainda na adolescência - a média de idades para o primeiro cigarro anda nos 16 anos -, mas cerca de 30 por cento começam a fumar já na faculdade. Depois, fica a dependência física.
Para o médico, é preciso intervir junto do universo dos estudantes de medicina fazendo campanhas direccionadas para este público, tendo em conta que o conhecimento científico sobre os malefícios do tabaco não chega para travar o hábito. No universo estudado, os motivos de saúde contribuem para a cessação tabágica apenas em 11 por cento, sendo o motivo mais importante a vontade própria (46 por cento) e a influência do cônjuge (17 por cento).
Segundo a OMS "os profissionais de saúde são estimulados a assumirem-se como não fumadores e a promoverem um estilo de vida livre de tabaco".

