Declarações de secretário de Estado sobre contaminação política do MP são "lamentáveis", juiz Rui Rangel

05.03.2010 - 17:32 Por Lusa
O presidente da Associação Juízes pela Cidadania considera "lamentáveis" as declarações do secretário de Estado da Justiça sobre alegados indícios de contaminação política do Ministério Público em casos pontuais de que tomou conhecimento enquanto advogado.
"Acho lamentável as declarações do doutor João Correia, que ainda não despiu a veste de advogado e ainda não vestiu a veste de secretário de Estado da Justiça", disse à Lusa Rui Rangel, sublinhando que de "uma pessoa de Estado" espera-se "ponderação, consenso e sensatez" e não afirmações de que ficou "com a impressão" que neste ou naquele processo houve contaminação política do MP.
"É exigível outro tipo de comportamento, de declaração, e que contribua para prestigiar as instituições e fazer baixar o ruído", sustentou Rui Rangel, observando que se João Correia "não despiu a veste de advogado então deixe de ser secretário de Estado da Justiça".
O presidente da Associação Juízes pela Cidadania apontou ainda a "sintonia" da declaração de João Correia com a que foi proferida quinta-feira no Parlamento pelo bastonário dos Advogados, Marinho Pinto, que já habituou o sector judiciário a "declarações demagógicas e generalistas", sem nunca provar as afirmações que faz como dirigente da Ordem dos Advogados.
Na quinta-feira, Marinho Pinto afirmou que "há sinais evidentes de que o poder judicial está a funcionar segundo uma agenda política". À saída da Comissão Parlamentar de Acompanhamento do Fenómeno da Corrupção, o bastonário disse que "basta ver o discurso público de alguns magistrados para ver que eles têm uma agenda política".
Rui Rangel disse ainda estar "agora na moda" a palavra "contaminação": "Agora inventaram a contaminação política da Justiça pelo poder político. Fantástico, mas não fica bem ao doutor João Correia não despir a veste de advogado".
Em declarações à Rádio Renascença, o secretário de Estado da Justiça João Correia referiu hoje que, como advogado, teve "indícios" de influências políticas na Justiça, mas nunca "provas".
"Em termos gerais, não corresponde à verdade. Não quer dizer que, pontualmente, não surja um ou outro caso claramente contaminado", disse à Renascença, concluindo: "Como advogado, tive algumas suspeições, mas não as posso revelar".

