Crianças devem ser ensinadas a ingerir menos sal na comida

16.10.2005 - 08:24 Por Ana Machado, PÚBLICO
Em média, o português comum consome 9 a 12 gramas de sal por dia, quando o ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), devia ser apenas cinco gramas. Para definir uma estratégia para combater os efeitos deste consumo excessivo na saúde, e aproveitando o balanço do Dia Mundial da Alimentação, que se comemora hoje, a Agência Portuguesa para a Segurança Alimentar anunciou que vai colaborar com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e com o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular (Ipatimup).
Imagine uma francesinha, bem carregada de molho. Cerca de 300 gramas deste manjar são responsáveis pela ingestão de 5,8 gramas de sal, o que equivale a mais do que a dose diária recomendada pela OMS, que é de menos de cinco gramas, ou seja, mais ou menos uma colher de chá. Ainda está com apetite?
Carla Lopes, investigadora do Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, explicou, num encontro com jornalistas organizado esta semana pela Agência Portuguesa de Segurança Alimentar, que normalmente associamos o consumo excessivo de sal só à hipertensão, o que está errado. Os efeitos nocivos do sal a mais são muito mais vastos. Acidentes vasculares cerebrais, insuficiência cardíaca, aumento do risco de cancro do estômago e até de osteoporose são algumas das relações já provadas.
O excesso de sal aumenta o volume de fluidos no organismo, o que faz com que o esforço cardíaco seja maior e a pressão arterial aumente, com todas as consequências para a saúde que isso implica, explica a investigadora: "O nosso organismo está preparado para se livrar do sal equivalente a um grama todos os dias, quando na realidade consumimos 9 a 12 gramas. E o mais grave é que a maior parte do sal ingerido é intrínseco aos alimentos, não é aquele que despejamos na panela da sopa ou na comida."
A ligação ao cancro
Para Carla Lopes, cabe aos pais e às escolas, dois actores fundamentais na alimentação infantil, cooperar no sentido de alterar os hábitos nas gerações mais novas: "Habituar as crianças a consumir alimentos com pouco ou mesmo nenhum sal é muito importante para corrigir este consumo no futuro."
Não é que o consumo de sal nas doses recomendadas também não seja importante. Mas a investigadora lembra que, se se cortar o sal da comida, há ainda muito que chega até nós, o chamado sal intrínseco dos alimentos, presente nas bebidas, bolachas, conservas, entre outros.
Manuel Sobrinho Simões, director do Ipatimup, onde se desenvolve uma larga investigação na área do cancro do estômago, esteve também neste encontro e lembrou que o sal tem um papel no aumento do risco de desenvolver este cancro, o terceiro mais mortal, a seguir ao do pulmão e o do cólon e recto. "Será que uma pessoa com uma propensão para ter cancro do estômago não terá mais risco de infecção com uma dieta rica em sal? Experiências com ratinhos dizem que sim", referiu Sobrinho Simões.
Os investigadores dizem que estudos realizados em 2003 indicam que uma diminuição do consumo de sal de nove gramas diárias para três pode levar a uma redução de um terço nos acidentes vasculares cerebrais e de um quarto na doença coronária, principais causas de morte nos países desenvolvidos.

