O consumo da maioria das substâncias ilícitas em Portugal está "abaixo da média europeia", disse hoje o director do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência, salientando, no entanto, que o consumo de cocaína continua a crescer no país. "Mas isto não quer dizer que não haja problemas, uma vez que há um crescente consumo de cocaína no país", disse o alemão Wolfgang Götz.
Apesar de não ter querido pormenorizar as tendências de consumo das várias drogas em Portugal por ser "matéria da competência do Instituto da Droga e Toxicodependência", o especialista ressalvou que o problema da cocaína "não é tão grave como em Espanha", que com o Reino Unido, Dinamarca e Holanda apresentam os mais altos consumos na Europa.
Quanto ao panorama geral do consumo das restantes substâncias ilícitas na Europa, o director do observatório disse que este "tem vindo a estabilizar". "Pode até dizer-se que o uso de certas substâncias, como a cannabis, diminuiu, especialmente na população jovem", precisou, explicando no entanto que estimativas apontam para "cerca de quatro milhões de consumidores regulares na Europa, o que traz novos problemas".
Adiantou também que um estudo que define o mapa do mercado de cannabis, a ser publicado este ano, estima que na União Europeia e Noruega sejam consumidas "anualmente 1750 toneladas desta droga", um consumo que "poderá equivaler a um valor de venda ao público de cerca de 9,6 mil milhões de euros".
Substâncias sintéticas
Wolfgang Götz destacou também o "desenvolvimento de novas substâncias sintéticas nas mais variadas direcções", lembrando que o Mecanismo Europeu de Alerta Precoce identificou "cerca de 90 substâncias ilícitas desde 1997". "Enquanto no fim dessa década se tratava sobretudo de derivados de Ecstasy, hoje as substancias mais comuns são os derivados de piperazina [estimulantes do sistema nervoso, como BZP]", explicou, adiantando que, "muito recentemente, se verificou também um forte aumento dos canabinóides sintéticos".
Nos últimos anos foi também identificada na UE uma "presença cada vez mais regular de misturas heterogéneas que incluem produtos vegetais, estimulantes raros e substâncias medicinais". A substância psicoactiva BZP provoca "efeitos semelhantes ao das anfetaminas e metanfetaminas, embora seja cerca de 10 por cento menos potente", explicou o perito alemão, lembrando que devido aos seus riscos para a saúde foi "submetida a controlo e sanções penais em todos os Estados-membros em 2008".
Outra droga destacada por Wolfgang Götz foi a mistura de ervas 'Spice': "Entrou no mercado como um ambientador de ar inofensivo e durante muito tempo foi vendido legalmente". No entanto, recentemente descobriu-se que as "ervas funcionavam como uma espécie de cavalo de Tróia e que o produto continha canabinóides sintéticos, que imitam os efeitos da substância activa da cannabis THC", precisou.
Falta de controlo eficaz de doenças é principal problema de Portugal
O director do Observatório Europeu da Droga considera que o maior problema relacionado com o consumo de droga que Portugal enfrenta é ainda não ter conseguido mitigar eficazmente a transmissão de doenças infecto-contagiosas através das drogas injectáveis.
"Na minha opinião, o principal problema que Portugal enfrenta é o de ainda não ter encontrado a chave para controlar eficazmente a transmissão de doenças infecto-contagiosas, como o HIV/Sida ou a hepatite C, através das drogas injectáveis", afirmou hoje o director do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), Wolfgang Götz, em entrevista à Agência Lusa .
O alemão Wolfgang Götz, que falava à margem do último dia da conferência internacional sobre droga que juntou mais de 300 especialistas em Lisboa, lembrou que Espanha "conseguiu reduzir em muito este tipo de transmissão implementando exactamente as mesmas medidas".
Segundo dados do Observatório Europeu, sediado desde 1995 em Lisboa, Portugal apresenta uma taxa de novos casos de HIV/Sida entre os consumidores de drogas injectadas oito vezes superior à média europeia.


