A oferta de consultas de cessação tabágica aumentou mais de 50 por cento num ano, mas os fumadores portugueses procuram-nas cada vez menos, segundo vários especialistas em prevenção do tabagismo.
Dados avançados pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) indicam que em 2007 existiam 150 consultas de cessação tabágica, número que subiu para 233 em 2008, ano da entrada em vigor da lei que restringiu o fumo do tabaco nos locais de trabalho e recintos públicos fechados. Em Setembro de 2009, havia 242 consultas, acrescentam os mesmos dados, que não reflectem ainda todo o país.
Para a especialista em prevenção e tratamento de tabagismo Sofia Ravara, “os fumadores estão a procurar menos ajuda”, o que se reflecte nas listas de espera para estas consultas, que têm vindo a diminuir. Esta tendência tem sido observada na Linha SOS Deixar de Fumar (808 208 888), criada em 2002 para aconselhar e apoiar os fumadores que querem deixar de fumar. Segundo o coordenador do serviço, os telefonemas têm vindo a diminuir nos últimos dois anos. Em média o serviço recebe três a quatro telefonemas diários, quase metade do que recebia quando foi criado. “Num primeiro momento pensámos que era uma espécie de reacção à lei. As pessoas pensavam: ‘não me deixam fumar, agora é que eu vou fumar’”, mas provavelmente o que está a acontecer é que não se está a acertar na forma de comunicar com os fumadores, avançou Paulo Vitória.
Também o presidente do Observatório Nacional de Doenças Respiratórias e Associação Nacional de Tuberculose e Doenças Respiratórias, Teles de Araújo, afirmou que “não tem havido a resposta desejável por parte dos fumadores”. Para Sofia Ravara, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, a fraca procura pode justificar-se por os “fumadores gostarem de fumar” e acreditarem nos mitos criados sobre os benefícios de fumar, como “ajudar a lidar com o stress ou com as dificuldades da vida ou a evitar que se engorde”. “Os fumadores quando pensam em deixar de fumar antecipam as dificuldades e não valorizam os benefícios. Como qualquer comportamento aditivo, precisam de ser encorajados e apoiados para ganharem confiança e acreditarem”, frisou.
A coordenadora da Comissão de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) realçou, por seu lado, o “aumento significativo de consultas de cessação tabágica nos cuidados primários” como uma das possiveis razões para a diminuição das listas de espera. Mas poderá haver outras razões: “O contexto socioeconómico não é motivador. No momento em que vivemos, deixar de fumar pode não ser uma prioridade para o fumador que tem outros problemas, como o desemprego. O próprio país e o sistema de saúde tem actualmente outras prioridades”, sublinhou Ivone Pascoal.
O tempo de espera nas consultas hospitalares também diminuiu. “Havia doentes que chegavam a esperar dois anos. Neste momento, esperam entre uma semana e três meses”, afirmou. No entanto, a adesão ao tratamento é “muito baixa”, adiantou, acrescentando que “há muitos doentes que abandonam a consulta”, evocando, muitas vezes, os custos como razão para abandonar o tratamento.


