Como as vítimas e os arguidos viveram ao longo dos anos

"Como contar à namorada que eu era uma das vítimas da Casa Pia?"

02.09.2010 - 07:35 Por Paulo Moura

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Diogo não odeia. É um sobrevivente. “Tornei-me uma pessoa melhor” Diogo não odeia. É um sobrevivente. “Tornei-me uma pessoa melhor” (Foto: Enric Vives-Rubio)
Entre as vítimas, uns já se entregaram ao crime, outros às drogas. Os que teimam em ter uma vida normal parecem à mercê de um sopro. Para eles, a Justiça pode ser uma questão de sobrevivência.

O Diogo não odeia. Se não fosse o que aconteceu, não teria a vida que tem hoje. Trabalha e estuda, vive com a namorada numa casa arrendada. Vai à praia, sai à noite, joga no computador, ouve Eminem. "Whatever you say I am, If I wasn"t, then why would I say I am?" É a sua canção preferida.

Dos arguidos no processo, o que sente é pena. "Tinham uma vida boa, estragaram-na por causa disto. Não tenho ódio. Nem tenho medo de nada", diz Diogo. Di-lo muitas vezes. Agora tem uma vida boa. Diz também isto muitas vezes. "Sou mais forte, mais organizado, com mais objectivos. Tenho um lema: o que não te mata torna-te mais forte".

E como nada disto o afundou ainda, é um sobrevivente. "De certa maneira, até estou agradecido", acrescenta, como se esbracejasse por se manter à tona. "Tornei-me uma pessoa melhor. Sou mais protector em relação aos outros. A minha namorada, por exemplo. À noite, quando eu estou a trabalhar até tarde e ela fica sozinha em casa, começo a passar-me". Tem medo que alguém lhe faça mal. ("Eu não tenho medo de nada"). Quer proteger a namorada. "A mim ninguém me protegeu."

Conheceu-a há quatro anos, mas só um ano depois lhe contou quem era. Ou melhor, o que lhe aconteceu, que não se confunde com o que ele é. "Whatever you say I am..." Eminem também foi maltratado na infância. "Queriam que ele mudasse, diz a canção. Mas ele mostra-lhes que uma pessoa é aquilo que é, não deve mudar por ninguém. A mim também me tentaram levar por um caminho que não era o meu. Mas eu não mudei. Sou o que sou."

Ao princípio, a namorada ficou chocada. Mas depois reagiu bem. "Isto não prejudicou a relação. Até nos uniu mais". Querem casar e ter filhos. "Serei protector com eles." Como é com o irmão, que também esteve na Casa Pia, mas nunca foi abusado.

Até aos seis anos, Diogo viveu numa pensão com a mãe. Ela trabalhava num bar. De repente abandonou-o. Não há ressentimentos. Ela começou a chegar sempre bêbada e batia no filho. De um dia para o outro, "sentiu que já não tinha condições para tomar conta de mim e abandonou-me". Agora, telefona de vez em quando. Mais ninguém da família o faz. "Não tenho família nenhuma. Pelo menos que eu saiba." Diogo foi acolhido num colégio religioso, depois na Casa Pia. A partir dos 11 anos começou a ser abusado. Só no processo de Carlos Silvino, é alegadamente vítima em mais de 100 crimes. Mas testemunhou contra todos os outros arguidos.

Na altura, não contou nada. Só quando um inspector da Judiciária foi ao colégio é que começou a falar. Aos poucos. "Tive medo. Não sabia o que os acusados poderiam fazer. Mas depois desenvolvi amizade com o inspector."

Com os 50 mil euros que recebeu de indemnização do Estado, arrendou a casa e comprou mobília. Mas sempre trabalhou. Agora entrega pizzas. Ao mesmo tempo estuda. Está no 1.º ano da licenciatura em Antropologia. Quer seguir Antropologia Forense, para "estudar os esqueletos de criminosos". O plano é acompanhar a namorada, que cursa Direito e sonha trabalhar no Tribunal Penal Internacional em Haia. "Ela tem a cabeça mais assente do que eu. Por isso ela é que decide para onde iremos". Na Holanda, ele poderia estudar os esqueletos das vítimas, para tentar perceber os criminosos que a namorada julgaria a seguir.

No primeiro ano da faculdade, Diogo chumbou às cadeiras todas. Mas o tempo está a seu favor. Tem 23 anos, uma vida absolutamente normal e a certeza absoluta disso.

"Acredito na Justiça"

Miguel odeia. "Quero que eles sofram na pele. Que sejam presos", diz dos arguidos. "São pessoas sem escrúpulos, porcos nojentos. E não têm remorsos."

O que aconteceu na Casa Pia marcou para sempre Miguel, hoje com 23 anos. "Cresci muito, desenvolvi uma força interior. Aprendi que vale a pena não desistir." Mas compreende também que tudo se tornou frágil. "Aquelas coisas estão na minha memória, surgem nos pesadelos."

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