Cólera: a doença das mãos sujas continua a matar todos os anos

15.09.2008 - 13:08 Por Sofia Branco, em Bissau
Estão vivos, mas o seu olhar parece já ter desistido. Os doentes de cólera que se aglomeram no Hospital Simão Mendes, principal unidade de saúde da Guiné-Bissau, esperam em macas de lona pela sua sorte - que pode ser a morte. Conhecida como a doença das mãos sujas, este ano a cólera já matou mais de cem pessoas e infectou cerca de 5500.
São homens e mulheres, algumas crianças também. Os doentes mais graves têm o luxo de poder dormir dentro da ala reservada para a cólera, os outros espalham-se ao ar livre pelo alpendre que abraça o edifício, embrulhando-se num lençol branco, que é trocado pelos enfermeiros quando muda de cor - a cólera, infecção intestinal aguda causada por uma bactéria, normalmente contraída por ingestão de alimentos ou de água contaminada, manifesta-se em diarreias, vómitos e até sangramentos. Outros doentes já estão instalados na tenda de campanha em frente, montada pela Unicef. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF), há um mês em Bissau, vão instalar outras tendas nos próximos dias.
Os gemidos e as queixas são a banda sonora habitual de corpos que se esticam, encolhem, contorcem, paralisam, corpos esqueletizados pela desidratação. Um doente grita pela enfermeira porque o seu pé esquerdo "morreu". Ela explica-lhe que é normal, que a cólera é assim mesmo e que ele tem de beber muita água, "pelo menos dois litros por dia". Ele não quer água, só quer o pé de volta. Os casos repetem-se no camaranchão do centro de cólera. Há desmaios repentinos, vómitos súbitos, diarreias constantes para as bacias colocadas por baixo do buraco feito nas lonas para os doentes, sem forças, não terem que se levantar.
Falta de cloro
Assegurar que as fezes e vómitos são tratados é fundamental para evitar posteriores contaminações. Os MSF estão a ajudar a construir aterros em redor do centro de cólera. Um deles já está pronto: um lavatório de cimento desemboca num tubo enterrado numa vala, cimentada por cima. Os dejectos só são colocados na terra após serem desinfectados com a solução de cloro mais concentrada.
Separado das restantes alas do hospital por ter uma elevada probabilidade de contaminação - bastam umas mãos sujas em contacto com a boca -, o centro de cólera do Simão Mendes - hospital onde chega a faltar tudo, até a luz - tem à entrada tapetes encharcados em cloro para ensopar os pés. E bidões azuis cheios de cloro, onde bóiam umas canecas de plástico para molhar mãos e braços, a que os médicos e enfermeiros estão constantemente a recorrer. Uma doente põe a sua espera (nome dado na Guiné ao pano africano usado como vestido sem mangas) dentro do bidão e ouve um raspanete de um dos médicos, lembrando que não se pode desperdiçar cloro à toa.
Combater a cólera não custa muito dinheiro, as soluções de cloro têm preços acessíveis. Mas a Guiné-Bissau não tem cloro suficiente em armazém e precisa de o importar. Quando a equipa de emergência dos MSF chegou ao país, o stock do hospital central era "insuficiente e irregular" e não havia cloro nos centros de saúde espalhados pela capital - "ainda não há", disse ao P2 o coordenador da equipa dos MSF, Daniel Remartínez. "A capacidade de resposta é deficitária" e o centro de cólera não estava a tomar as "medidas adequadas", considera o médico espanhol. Mesmo assim, sublinha, sendo a mortalidade global "importante", "não é muito alta". Mas ainda "pode aumentar".
Até porque o pessoal médico local, explica Remartínez, continua a "limpar o chão sujo com uma mangueira", fazendo do hospital um "foco de infecção". A água não elimina a cólera, ao contrário, potencia-a - daí que a doença prolifere com as chuvas.
A cólera não é propriamente uma surpresa na Guiné, um dos países mais pobres do mundo. Espera-se que ela aconteça todos os anos, por alturas das chuvas - a Organização Mundial de Saúde diz que a doença é endémica no país. Como é endémica em todos os países subdesenvolvidos que carecem de saneamento básico, aterros sanitários, sistema de distribuição de água potável. Menos de dez por cento da população guineense tem acesso a água potável e mais de 80 por cento dos poços estão contaminados.

