Chuva de ontem foi excepcional e a falta de um radar meteorológico não permitiu que fosse prevista

21.02.2010 - 09:45 Por Ricardo Garcia
Foi uma chuva excepcional. A quantidade de precipitação que caiu sobre o Funchal entre as 6h00 e as 11h00 (111 milímetros) foi quase o dobro do limite que leva a declarar o alerta vermelho (60 milímetros em seis horas). No Pico do Arieiro, foi quase o triplo (165 milímetros). A hora mais problemática foi entre as 9h00 e as 10h00, quando caíram 52 milímetros. A partir das 11h, os próprios serviços de meteorologia da Madeira foram afectados e deixaram de comunicar com Lisboa.
O Instituto de Meteorologia (IM) não tinha como antecipar aquela situação. "São valores mais do que excepcionais", diz a meteorologista Maria João Frada, do IM. Os modelos de previsão não podem antever extremos como aqueles. E a Madeira não dispõe de um radar meteorológico, que teria permitido avaliar o potencial de precipitação das nuvens que se aproximavam. Só há dois no país, um no Algarve e outro em Coruche.
"Na Madeira, seria importante haver um", avalia o climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa. A confluência de massas de ar frias, do Norte, e quentes, do Sul, torna com frequência o ar muito instável na região.
Rui Rodrigues, responsável pela monitorização dos recursos hídricos no Instituto da Água, também considera excepcionais as chuvadas na Madeira. Com base em curvas que integram a intensidade, a duração e a frequência dos episódios de precipitação na região, uma situação como a de ontem aconteceria uma vez em cada cem anos ou mais. O número é apenas uma aproximação - dadas as limitações do modelo de base a partir do qual foi calculado - , mas ainda assim "dá a indicação de que se tratou de um fenómeno muito extremo", diz Rui Rodrigues.
O excesso de água combinou-se com dois factores para o trágico resultado de ontem. Um deles é a própria geografia da Madeira, com declives acentuados do interior para o litoral. Um forte temporal, concentrado em poucas horas, forma enxurradas que varrem o que está à sua frente. Já tinha acontecido em 1993. "Havia blocos de pedra a saltar para a água como bolas de pingue-pongue", recorda Rui Rodrigues.
O segundo factor é humano: a ocupação crescente das zonas mais baixas, para onde a água escorre, especialmente no Funchal. "A cidade cresceu muito nos últimos 20 a 30 anos", afirma Hélder Spínola, dirigente da associação ambientalista Quercus e que vive na Madeira.
Além disso, diz Spínola, a procura por mais espaço edificável resultou no estrangulamento das ribeiras e no seu encanamento, aumentando o risco de cheias. As imagens de umas oficinas da PSP atravessadas por uma torrente de água mostravam este efeito: era o caudal de uma ribeira estrangulada, que extravasara para a rua. "Este é um exemplo como muitos outros", afirmou Hélder Spínola.
Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira, procurou afastar as críticas de má ocupação do território, dizendo que foram feitas intervenções importantes para minorar o risco de cheias. "Se não tivéssemos feito as obras de canalização das ribeiras que fizemos, hoje não existia a Baixa do Funchal", disse.

