Casos suspeitos correm para as urgências em vez de ligarem para a linha Saúde 24

07.05.2009 - 23:46 Por Alexandra Campos
Foi mais um falso alarme. Mas serviu para deixar claro que a mensagem insistentemente repetida pelo Ministério da Saúde nos últimos dias – a de que todos os viajantes provenientes de zonas afectadas pela gripe A e com sintomas da doença devem ligar para a linha Saúde 24 em vez de correrem para as urgências, de forma a evitar contágios em cadeia – não parece estar a chegar a muitas franjas da população.
O caso hoje conhecido de um casal suspeito de ter contraído a doença é paradigmático: os dois jovens, regressados há uma semana do México via Madrid, foram não uma mas sim duas vezes à Urgência do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia (CHVNG); da primeira vez, por não apresentarem sintomas da doença, mandaram-nos para casa; da segunda, como apresentavam já um quadro clínico compatível com a patologia (dores de cabeça e febre), foram isolados num quarto de pressão negativa enquanto aguardavam pela ambulância que os transferiu para o hospital de referência para casos suspeitos (o S. João, no Porto), como reza o plano de contingência para uma eventual pandemia.
À porta da urgência, familiares do casal (que é de etnia cigana) geraram alguma confusão porque queriam entrar no quarto de isolamento.
No S. João, os dois jovens ficaram internados longas horas até se perceber que não tinham gripe A, nem uma trivial gripe sazonal, sequer. Tudo não passou de um grande susto. Mas o caso não é inédito. A mulher de 31 anos que se tornou o primeiro (e por enquanto) único caso confirmado da doença em Portugal passou também primeiro pela urgência de um hospital de Lisboa (privado). E os pais do menino há uma semana internado no S. João (tinha meningite, mas os progenitores insistiam que era gripe A) também o levaram primeiro à urgência do Hospital de Chaves.
Por que motivo é que as pessoas não ligam antes para a linha Saúde 24 (808 24 24 24)? O desconhecimento parece ser a principal explicação.
Empresas devem preparar-se
“Linha Saúde o quê?”, perguntou (em resposta à questão do PÚBLICO) a mãe de um dos jovens internados no S. João, enquanto aguardava com ansiedade pelos resultados dos testes.
Rodeada de outros familiares na sala de espera do S. João, Leonor não sabia que esta linha existe e que teria sido preferível ligar para lá antes de ter ido ao hospital. O filho, de 24 anos, decidiu ir à urgência de Gaia com a mulher, de 18, simplesmente porque os dois tinham vindo do México e ficaram assustados com o aparato montado à entrada do avião que os trouxe até Madrid (da capital espanhola até Gaia vieram de carro). Na altura, nem sequer tinham sintomas. “Não os podíamos internar só porque vinham do México”, explica uma fonte hospitalar.
Hoje, a ministra da Saúde voltou a recomendar a toda a gente que venha de uma região afectada, apresente sintomas ou tenha contactado com um caso confirmado que ligue primeiro para a linha Saúde 24. E aconselhou também os diversos organismos e empresas a accionar ou a construir os planos de contingência para a nova gripe, sublinhando que a Direcção-Geral de Saúde os pode apoiar nesse sentido.
“Temos de ser capazes de responder a todas as eventualidades”, justificou a ministra, que aproveitou o final da reunião do Conselho de Ministros para fazer o ponto da situação. Ana Jorge voltou a sossegar os ânimos. Assegurou que, apesar de o número de casos continuar a aumentar todos os dias no mundo, a situação é considerada de “baixa gravidade” do ponto de vista clínico.
Não há razão para cautelas especiais com Espanha
Numa altura destas, será que faz sentido o controlo de fronteiras? Notando que a sanidade internacional está a funcionar (foi reforçada nos aeroportos internacionais e nos portos marítimos), a ministra continua a não ver qualquer razão para determinar cautelas especiais no caso de Espanha (o país da Europa com mais casos confirmados, 81, cinco dos quais por transmissão secundária).
“Em relação a Espanha, não há [procedimentos especiais], mas também é muito difícil fazer o controlo, porque as pessoas chegam de avião, comboio e carro. Por outro lado, em Espanha, embora haja mais casos, não existe neste momento transmissão terciária”, explicou. Os casos passaram por contactos directos com viajantes.
Notícia actualizada às 00h11

