Leonor Cipriano afirmou hoje em tribunal ter sido agredida durante cerca de uma hora por agentes da PJ em Faro, que a interrogaram no âmbito das investigações ao desaparecimento da filha, Joana, mas admitiu não saber se consegue identificá-los. O seu advogado vai pedir também que o ex-director nacional da Polícia Judiciária, Alípio Ribeiro, seja arrolado como testemunha no processo para que explique porque demitiu o ex-polícia Gonçalo Amaral.
A mãe de Joana falava no Tribunal de Faro, na primeira sessão do julgamento de cinco inspectores da Polícia Judiciária (PJ) envolvidos num processo relacionado com alegadas agressões durante um interrogatório na PJ de Faro, quando esta já estava presa preventivamente.
Segundo disse no início da sessão o advogado de quatro dos cinco inspectores, António Pragal Colaço, Leonor Cipriano confessou aos agentes ter estado envolvida na morte da filha no dia 13 de Outubro de 2004, mas a data apontada para as alegadas agressões é o dia 14 do mesmo mês. Nenhum dos cinco inspectores da Polícia Judiciária (PJ) acusados no âmbito do processo - apenas dois continuam a desempenhar funções naquela polícia -, quiseram prestar declarações em tribunal, reservando-se ao direito de falar mais tarde.
A mãe de Joana disse ter sido agredida por não responder ao que "eles queriam". "Queriam saber onde estava o corpo [de Joana] e eu dizia que não lhe tinha feito nada, então começavam a espancar-me", disse em tribunal, justificando que não respondia porque sabia não ter feito mal à filha. Leonor Cipriano afirmou ainda que os inspectores lhe enfiaram um saco de plástico na cabeça, deram-lhe murros e obrigaram-na a ajoelhar-se em cima de cinzeiros partidos, o que lhe deixou marcas visíveis. Acrescentou que lhe bateram com tubos de cartão e com o que parecia ser uma lista telefónica, mas admitiu não saber se conseguirá identificar quem a agrediu, apesar de afirmar reconhecer algumas pessoas presentes na sala durante o interrogatório.
Leonor Cipriano afirmou também em tribunal ter pedido para ser levada a um Centro de Saúde, onde foi atendida por um médico que lhe receitou uma pomada e pingos para os olhos. Segundo a mãe de Joana, à chegada à prisão, um dos inspectores disse-lhe para ela se justificar com as agressões dizendo ter-se atirado das escadas, caso contrário, iriam fazer-lhe "pior". Contudo, Leonor Cipriano acabou por contar à guarda prisional que a ia transportar para a cela que tinha levado "porrada" dos inspectores e reiterou em tribunal nunca ter caído, escorregado ou tentado atirar-se de umas escadas.
Lesões fotografadas
As lesões alegadamente provocadas pelos agentes na face de Leonor Cipriano foram depois fotografadas por uma funcionária do Estabelecimento Prisional de Odemira, tendo, segundo a mãe de Joana, demorado um ou dois meses a desaparecer as marcas que tinha na face e no corpo. Leonor Cipriano negou ainda ter admitido perante a Juíza de Instrução Criminal (JIC) de Portimão, na altura em que lhe foi decretada prisão preventiva, que a morte de Joana tinha sido acidental e que o corpo tinha sido escondido por terceiros.
O advogado de Leonor Cipriano Marcos Aragão Correia disse, à margem da primeira sessão do julgamento, que pretende arrolar Alípio Ribeiro como testemunha para que possa explicar as decisões que tomou em relação a Gonçalo Amaral. Este coordenou as investigações do caso Joana e viria a comandar também durante cinco meses o caso Maddie, a menina inglesa desaparecida na Praia da Luz, tendo sido afastado da Polícia Judiciária (PJ) em Outubro do ano passado.
Marcos Aragão Correia disse ainda querer que Leandro Silva, ex-companheiro de Leonor e que hoje esteve no Tribunal de Faro, também arrolado com testemunha, venha a depor sobre assunto. O advogado diz não ter feito o requerimento hoje por escassez de tempo e dada a hora a que terminou a primeira sessão do julgamento, já perto das 19h00. Contudo, tenciona requerer ao Tribunal de Faro que o antigo director-nacional e actual inspector do Ministério Público seja arrolado como testemunha na quarta-feira, dia em que o julgamento é retomado.
O denominado "caso Joana" remonta a 12 de Setembro de 2004, dia em que a menina, de oito anos, desapareceu da aldeia de Figueira, concelho de Portimão, Algarve, e cuja mãe, Leonor Cipriano, e o tio, João Cipriano (ambos irmãos), estão condenados pelo Supremo Tribunal de Justiça a 16 anos de prisão cada um pelos crimes de homicídio e ocultação de cadáver da criança.
As acusações do Ministério Público contra os inspectores da Judiciária surgiram na sequência dos interrogatórios na PJ de Faro. Três inspectores são acusados de crime de tortura, um é acusado de não ter prestado auxílio e omissão de denúncia e um quinto é acusado de falsificação de documento.
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