A defesa de Carlos Cruz no processo Casa Pia reforçou hoje a ideia de que o apresentador de televisão não mantinha contactos com os outros arguidos nem conhecia as alegadas vítimas, nas alegações finais complementares.
“Com um acervo tão esmagador de registos telefónicos, milhões de chamadas, não há qualquer rasto de relações entre estas pessoas?”, interrogou-se o advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes, em declarações aos jornalistas à saída do Tribunal Criminal de Lisboa, no Campus de Justiça, em Lisboa.
Durante as alegações, Ricardo Sá Fernandes afirmou que os arguidos “teriam que ser deuses para conseguir fazer tudo aquilo de que são acusados sem deixar rasto”.
O advogado salientou que, com tantos registos telefónicos no processo, só recentemente surgiram indicações de três chamadas feitas de um telemóvel em nome do arguido João Ferreira Dinis para o do embaixador Jorge Ritto.
Sem avançar explicações para a existência de tais chamadas, disse que “valem o que valem”, mas salientou que conclui “o que qualquer pessoa de boa-fé vê quando verifica tanto material de tráfego telefónico”: que “estas pessoas não se conheciam e não mantinham contactos entre si”.
Sá Fernandes reiterou a ideia de que o processo resulta de “uma fantasia” suscitada pela cobertura mediática especialmente televisiva feita quando surgiram os primeiros relatos de abusos sexuais a menores da Casa Pia de Lisboa.
Para exemplificar, falou do testemunho de uma das alegadas vítimas, que numa das primeira entrevistas divulgadas afirmou ter sido abusado, mas não falou em nenhum dos arguidos. Viria a falar deles “depois da prisão de Carlos Cruz” ter aparecido nas televisões, argumentou Sá Fernandes.
Sá Fernandes voltou a pedir a absolvição de todos os arguidos à excepção do ex-motorista da Casa Pia Carlos Silvino, que já confessou muitos dos abusos de que é acusado.
Por seu lado, o advogado de Silvino, José Maria Martins, afirmou que se fosse a juíza presidente do colectivo, Ana Peres, “pedia escusa do processo”.
“É preferível derrubar o edifício e criá-lo de novo. O povo, em nome de quem julga, não tem confiança neste tribunal e na decisão que possa surgir. O povo pensa que o tribunal foi manipulado pelo poder para prolongar o julgamento”, alegou José Maria Martins.
“Se não pedir escusa, só tem que condenar todos, sem excepção”, disse José Maria Martins, que pediu para o seu constituinte uma pena não superior a cinco anos, para que possa ser suspensa.
Marta Saramago, advogada do ex-provedor-adjunto da Casa Pia Manuel Abrantes, pediu novamente para o seu cliente a absolvição, como fez depois a advogada do médico Ferreira Diniz e o advogado de Gertrudes Nunes, dona de uma casa em Elvas onde alegadamente ocorreram abusos sexuais de menores casapianos.
O julgamento prossegue no dia 2 de Novembro, com as declarações finais de arguidos.
No processo responde ainda por abusos sexuais o advogado Hugo Marçal.


