Casa do Avarela era a nova fábrica de bombas da ETA

07.02.2010 - 09:01 Por Paula Torres de Carvalho, Nuno Ribeiro, em Madrid
Material descoberto permitia fazer 1,5 toneladas de explosivos. Numa das casas de banho da moradia, os ocupantes tinham instalado um laboratório.
A moradia da Rua do Gesso, em Casal do Avarela, nos arredores de Óbidos, era a nova fábrica de bombas da ETA. Os serviços antiterrorismo espanhóis admitem, mesmo, que a organização terrorista transferiu boa parte do seu aparelho militar e técnico de França para Portugal.
A quantidade de material apreendido na garagem e na moradia de dois andares de Casal do Avarela confirma esta tese: na garagem havia 400 quilos de bombas já prontas à espera de detonadores, 1,3 toneladas de nitrato de amónio, 75 quilos de nitrato de potássio e quantidades não especificadas, ao meio da tarde de ontem, de pentrita, utilizada para potenciar as deflagrações, pó de alumínio e nitrometano. Um arsenal que, segundo os cálculos do Ministério do Interior de Espanha, que divulgou um comunicado no final da tarde de ontem, permitiria o fabrico de 1,5 toneladas de explosivos.
A pacata localidade da região Oeste de Portugal era, para os etarras, a sucessora da fábrica de explosivos desarticulada em Cahors, em França. Uma operação conjunta das polícias francesa e espanhola naquela localidade, em Setembro de 2007, levou à apreensão de 400 quilos de bombas, como o PÚBLICO noticiou na edição de 13 de Janeiro passado. Ou seja, para a ETA, o Casal do Avarela era, menos de três anos depois, um "Cahors 2" reforçado, com mais quantidade de explosivos.
Numa das casas de banho da moradia, os seus ocupantes - Oier Gómez Mielgo e Andoni Zentitabengoa Fernández - tinham instalado um laboratório. Na residência foram encontrados dois computadores, quatro telemóveis, mapas da zona Norte de Portugal, e de Espanha, estes últimos com anotações. Havia, ainda, planos das cidades de Coimbra, Madrid e Cádis. Um talão de um supermercado, com a data de 17 de Janeiro passado, parece ser o único indício encontrado sobre o tempo da estadia dos etarras naquela localidade portuguesa.
Para que o material encontrado em Óbidos pudesse ser utilizado como bombas faltavam detonadores, temporizadores e componentes electrónicos. Estes, curiosamente, constavam da carga do furgão Iveco interceptado em 9 de Janeiro nos arredores de Zamora, e que levou à fuga e posterior detenção pela GNR, em Torre de Moncorvo e Vila Nova de Foz Côa, de Iñaki Galbete e Eider Zabaleta. Na Iveco de matrícula francesa havia 50 relógios electrónicos que podiam ser utilizados como temporizadores para meia centena de bombas; 25 temporizadores já montados; 30 sensores de movimento para bombas-lapa, que a ETA coloca sob os veículos e que explodem com o seu andamento; ampolas de mercúrio e de nitrato de prata; duas centenas de conectores e 100 pilhas; e 200 circuitos eléctricos.
Por isso, as autoridades espanholas acreditam que o envio interceptado em Zamora no início de Janeiro tinha como destino a moradia da Rua do Gesso, na pacata localidade da Estremadura. Os peritos duvidam de que os dois residentes na casa de Óbidos, Oier e Andoni, de 27 e 30 anos, ambos oriundos da violência urbana, tivessem conhecimentos para o fabrico de bombas. Por isso, admitem o envolvimento de outros. Recorda-se, aliás, que Oier Mielgo e Andoni Fernández, após fugirem em 1 de Fevereiro a um controlo da GNR na região de Óbidos, abandonaram o veículo, uma Citroën Berlingo roubada há cerca de um ano na área de Castelo Branco, e não mais foram encontrados. O que, obviamente, leva a concluir que tiveram apoios.

