Cardeal-patriarca ou bispo do Porto para presidir à Conferência Episcopal

02.05.2011 - 10:57 Por António Marujo
O bispo do Porto ou o patriarca de Lisboa. Um dos dois deverá ser eleito, já hoje ou amanhã, como novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Terminados os dois mandatos consecutivos de D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, o episcopado deverá agora voltar-se para um nome completamente novo no cargo - D. Manuel Clemente, do Porto -, ou uma repetição: D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa.
Dificilmente a escolha pode recair em outros dois nomes que são aventados como hipóteses alternativas: o bispo de Leiria, António Marto, actual vice-presidente, e o arcebispo de Évora, José Alves.
O patriarca volta a surgir como possibilidade, tendo em conta dois factores. O primeiro é que o cardeal deverá continuar em Lisboa até 2012 ou 2013. Com 75 anos completados em Fevereiro e a carta de renúncia ao cargo entregue nessa data, conforme mandam as regras do direito canónico, é sabido já que o patriarca ficará como titular da diocese pelo menos até ao próximo ano. Provavelmente para além disso. A escolha do seu nome para presidente da CEP, cargo que já exerceu entre 1999 e 2005, será assim uma solução à espanhola: também na Conferência Episcopal do país vizinho, o arcebispo de Madrid, cardeal Rouco Varela, foi reeleito presidente em Março, apesar de já ter completado os 75 anos.
O segundo factor foi o próprio bispo do Porto que o provocou: em entrevista ao Correio da Manhã, no sábado de Páscoa, Manuel Clemente avançava claramente a hipótese do patriarca para presidente: "Neste momento, acho que a Conferência Episcopal deve estar no Sul. Esteve dois mandatos no Norte e acho que agora ficava muito bem lá para o Sul, para a zona de Lisboa." Esta declaração pode ser interpretada como sendo apenas uma manifestação simpática para com o seu colega de episcopado. Ou pode significar que Manuel Clemente está mesmo a querer dar um sinal aos restantes bispos, no sentido de escolherem o patriarca para um terceiro triénio à frente da CEP.
A eleição pode ficar dependente, assim, da atitude que o próprio bispo do Porto tomar, perante os seus pares, no início da assembleia, esta tarde. A primeira votação será decisiva: se o patriarca tiver um bom número de votos, a sua eleição será quase certa. Se não, pode pender para o bispo do Porto.
Haverá, no entanto, outros argumentos a pesar. E não é de somenos saber que vários membros da CEP recusaram já, há três anos, a hipótese de dar um novo mandato ao patriarca. E tinham recusado, há seis anos, a possibilidade de alterar os estatutos da conferência de modo a que o patriarca pudesse fazer um terceiro triénio consecutivo como presidente da CEP.
Sabe-se também que D. José Policarpo nem sempre participa nas reuniões da conferência - ou, pelo menos, na totalidade do tempo -, facto que leva alguns dos seus colegas a não verem com bons olhos a sua escolha.
Seja qual for a opção dos bispos, estará em causa um problema velho da CEP: como dar uma dinâmica colectiva a um corpo que, muitas vezes, toma decisões conjuntas que são depois contrariadas ou ignoradas pelos diferentes bispos nas suas dioceses.
Nesta perspectiva, há bispos que olham para Manuel Clemente como alguém que pode dar uma nova dinâmica à CEP. Mas também há outros que pensam que, na actual conjuntura do país, ele pode ser menos crítico para com um eventual Governo do PSD do que o patriarca.
Hoje, depois do discurso de abertura, de D. Jorge Ortiga, a agenda da assembleia plenária prevê a imediata eleição da nova presidência. O processo pode, assim, ficar resolvido já ao final da tarde, pelo menos no que à presidência e ao conselho permanente diz respeito.
Já quanto às comissões sectoriais (pastoral social, seminários, cultura, etc.), a decisão pode ser remetida para a assembleia plenária de Novembro. É que há novos bispos na calha (Bragança e Lamego), depois de, na semana passada, ter sido também nomeado um novo bispo para Coimbra, e a CEP pode decidir esperar pelas futuras nomeações para distribuir os responsáveis pelos diferentes pelouros sectoriais.
A votação é nominal: presidente, vice-presidente, secretário e três vogais são eleitos por maioria de metade mais um. A partir da terceira, basta uma maioria simples.

