Em Moçambique a música não se cansa de formar pessoas e a educação salva vidas. Foi isso que Feliciano dos Santos e o seu grupo Massukos demonstraram ao cantar sobre a higiene e a saúde ao seu povo. Hoje, o trabalho do músico é reconhecido ao juntar-se a mais cinco projectos que venceram os Goldman Environmental Prize, o prémio que muitos chamam de "Nobel do Ambiente". A cerimónia de entrega do galardão vai ser em São Francisco, na Califórnia.
“Em África quando se toca um batuque, as pessoas aglomeram-se e aquele é o momento próprio para começar a transmitir aos outros aquilo que lhe vai no coração”, disse Feliciano à BBC África. O músico também é director da organização não governamental "Estamos", onde promove a agricultura sustentável, lidera projectos de reflorestação e apoia iniciativas de combate à sida.
Feliciano, de 43 anos, é natural de Niassa, uma região pobre situada no Norte de Moçambique com grandes deficiências no saneamento básico e por isso muito susceptível a doenças. Em 1992 iniciou com a UNICEF um projecto ecológico para o saneamento das aldeias. Com as suas canções, começa por explicar a importância da higiene e acaba a propor às pessoas a utilização de latrinas.
Com o sistema das latrinas consegue transformar-se os detritos humanos em fertilizantes naturais, ricos em nutrientes. Durante alguns meses uma família tem uma latrina, sempre que é utilizada a latrina recebe cinzas e terra. Quando a família passa para outra latrina, a fossa da primeira é enterrada durante oito meses, matando todos os micróbios patogénicos. O resultado é um fertilizante utilizado para adubar a terra, que também ajuda o solo a reter água.
Nas famílias que utilizam o saneamento ecológico, as doenças diminuíram e o rendimento dos solos aumentou 100 por cento. Cada casa acaba por produzir mais do que consome e faz dinheiro vendendo parte do que acumula. “Este prémio serve para as pessoas perceberem que não interessa a nossa origem, o que é importante é realizar coisas que marcam a diferença”, afirma o músico.
Um prémio por continente
Os Goldman Environmental Prize nasceram em 1990 pelas mãos do filantropo Richard N. Goldman e da sua mulher Rhoda H. Goldman (1924-1996). O casal de São Francisco decidiu valorizar os projectos regionais na área do ambiente que passavam muitas vezes despercebidos. Todos os anos, seis projectos - um por cada continente e o sexto para as ilhas - são laureados com cerca de 95 mil euros.
Este ano, para além de Feliciano dos Santos, foram reconhecidos: Marina Rikhvanova, pela protecção do lago Baikal, o lago mais antigo do mundo situado na Sibéria; Ignace Schops, pelo sucesso do primeiro parque natural na Bélgica; Jesús León Santos, pelo desenvolvimento da agricultura tradicional numa região estéril do México; Pablo Fajardo Mendoza e Luis Yanza do Equador, pela batalha judicial que tiveram contra uma empresa petrolífera que poluía a Amazónia; e Rosa Hilda Ramos, líder do movimento que conseguiu a protecção permanente de uma zona de pântanos e mangais em Porto Rico.
Os prémios vão ser entregues na Casa da Ópera de São Francisco. Para além do valor monetário, a distinção dá projecção, reconhecimento e credibilidade aos trabalhos dos vencedores. O galardão é uma escultura de bronze que representa o Ouroboros, a famosa serpente que forma um círculo ao morder a sua própria cauda. Segundo o site do Goldman Environmental Prize a escultura é o símbolo do “poder da natureza para se regenerar”.


