Fora do recinto do Campo Pequeno, em Lisboa, está montada outra arena em plena praça. O vento frio é quem arbitra a batalha que ao início da noite separa a música tauromáquica e o barulho de tachos, panelas e apitos. Ontem, de um lado da barricada ouviam-se cânticos: “a tourada é cobardia”. Do outro, chegavam só vestígios dessas palavras. As fortes rajadas levam os sons para longe. A multidão que aguarda para entrar olha com desdém mas não ouve, nem quer ouvir. O “paso doble” que vem dos altifalantes domina a noite que entretanto já chegou, gelada.
Um pouco afastadas da zona da entrada do recinto, da última corrida da temporada, grades vermelhas delimitam o grupo que ali está para uma manifestação contra as touradas. A barreira física e sonora separa também duas realidades bem diferentes.
“Que deus reparta azar”
Com um ar relaxado, em conversa descontraída, os activistas da associação Animal chegaram cedo. O espectáculo, lá dentro, só começa dali a quase três horas, mas já se colam os cartazes e se besuntam os rostos de vermelho. “É o derramar de sangue”, diz de forma irónica um dos activistas. Pedro Videira, 32 anos, técnico de electrónica, explica no mesmo tom que pinta a cara porque “as pessoas estão ávidas de sangue“. Pedro participou em 14 das 15 manifestações que a Animal promoveu durante a temporada do Campo Pequeno, que agora termina. Apesar de confessar que este “ano está menos gente”, o activista considera que assim o objectivo é mais fácil de alcançar: “Queremos incomodar as pessoas que assim não têm um serão tão agradável e incomodar também quem manda”.
Para isso o grupo, além de “dar o corpo ao manifesto” , veio munido de vários cartazes amarelos com letras vermelhas e negras que apelam ao “mundo supersticioso” do adversário. Num deles pode ler-se: “Que Deus reparta azar”. Rita Silva, vice-presidente da Animal, esclarece que na tradição tauromáquica o amarelo é a cor da fome e que o número 13 e os gatos pretos são símbolos de azar levados a sério, “isto é mesmo uma provocação”, acrescenta. Aos 27 anos, enquanto segura um boião de tinta e com as mãos vermelhas como o sangue, Rita defende que “em 2008, já é tempo de acabar com as touradas”, mas reconhece que o assunto "é muito delicado” e que “há algum pudor em mexer-se nas tradições”.
Nem todos são experientes nestas andanças. Manuel e Lea Gonçalves, pai e filha, vieram desde Abrantes de propósito para participar pela primeira vez no protesto do género. Lea, 25 anos, explica que soube através do site da organização de defesa dos animais e com um ar tímido explica: “quisemos dar o nosso contributo”. Manuel, 50 anos, partilha do entusiasmo da filha, mas confessa que começa a reparar que é o mais velho no meio da manifestação, “deste lado é só gente jovem”.
Casa cheia em noite fria
Ainda que falte algum tempo para começar o espectáculo, Manuel Borges, 48 anos, engenheiro electrotécnico, também chegou cedo ao Campo Pequeno, só que está do “outro lado”. Próximo da entrada, vestido com uma camisa engomada e sapatos engraxados, Manuel lança um olhar atento ao pequeno grupo de 50 activistas e diz com desagrado: “acho que é demais”. Na opinião do aficionado não faz sentido acabar com uma tradição que “já vem dos nossos reis e faz parte da nossa cultura”. Há mais pessoas a aproximarem-se das bilheteiras aparentemente indiferentes ao que se passa ali ao lado. Dois adeptos das touradas garantem que “já há bilhetes esgotados”. António Lampreia e o amigo conversam animados e dizem que “é graças a estas pessoas que as arenas estão cheias”. O editor literário de 54 anos refere-se aos protestantes e esclarece que o que ali se vê “são duas filosofias em jogo totalmente diferentes”. Para António de um lado estão “os que viveram no campo e do outro os meninos urbanos”.
Na noite de Lisboa o frio aperta. O vento gelado que já se fazia sentir agora sopra com mais força. Os aficionados apressam-se a entrar para o “calor” da corrida. Enquanto fuma um cigarro, Paulo Feijó, 48 anos, ex-forcado, defende, uma ideia partilhada pela maioria dos espectadores do acontecimento da noite: “acabem com as touradas, que os touros desaparecem”. Para Paulo é a tradição tauromáquica que mantém a espécie e acrescenta: “temos mais amor aos animais do que eles”.
Mas "eles" não se calam. Continuam a gritar mesmo que já não se façam ouvir pela multidão que se junta à entrada do recinto.


