Bom tempo e prevenção "atrasaram" a gripe 
24.10.2009 - 10:01 Por Romana Borja-Santos, Joana Bénard da Costa (RR)
Segundo Francisco George, nenhuma pandemia é igual, mas, se as autoridades de saúde não tivessem apostado na prevenção, poderíamos ter assistido a um cenário semelhante ao da gripe asiática de 1957 - altura em que se estima que tenham morrido em Portugal cerca de 100 mil pessoas.
Há alguma semelhança entre a pandemia com que estamos a lidar e as anteriores?
De início surgiram indicadores que foram lidos como sendo muito semelhantes aos que se verificaram em 1957, quando emergiu também uma nova estirpe, o H2N2. Todos reconhecem que não há pandemias iguais e a de 1957 foi diferente da que surgiu em 1918 (a gripe pneumónica ou espanhola) e da de 1968 (a gripe de Hong Kong). Mas em termos da natureza, se não tivéssemos moldado a curva epidémica com medidas de saúde pública, há de certeza semelhanças.
O que fizemos de diferente e porquê?
Introduzimos medidas de saúde pública para atrasar a propagação da epidemia. Em primeiro lugar, quisemos dar tempo aos sistemas de saúde e a todos os sectores quer privados, quer públicos e, em segundo, quisemos ganhar tempo para a vacina chegar.
A primeira fase de combate foi bem-sucedida porque beneficiámos do alerta dado há dois anos pela gripe aviária?
O primeiro grande objectivo, que era ganhar tempo, está cumprido. Em termos teóricos - e só em termos teóricos -, podíamos admitir que a curva epidémica teria tido o mesmo percurso que em 1957. Podíamos ter tido uma curva muito acelerada de formação de cadeias de transmissão que multiplicariam os focos de contágio se não tivéssemos adoptado medidas e dispositivos muito exigentes para atrasar a propagação. O Sistema Nacional de Saúde não tinha a robustez que tem hoje. As medidas são inovadoras e a realidade dos antivirais tem pouco mais de dez anos. Mas estamos perante um fenómeno que era esperado e que sabíamos que ia acontecer. O mesmo não aconteceu com a sida. Estávamos em 1980 e ninguém tinha admitido uma pandemia como aquela.
O facto de o bom tempo se ter prolongado ajudou a combater o avanço da gripe A?
Seguramente que sim. A actividade do vírus da gripe depende da temperatura e da humidade. Estamos em crer que o nosso clima durante o Verão terá apoiado indirectamente os trabalhos que visaram atrasar a propagação da infecção. Mas não há Inverno sem gripe e nós vamos ter gripe.

