O bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, criticou o que chamou de “turbo-capitalismo financeiro, que muda toda a agenda política, económica e financeira da noite para o dia e não dá sequer a possibilidade aos governos de actualizar as medidas necessárias” para enfrentar a actual crise.
Em conferência de imprensa, hoje à tarde, antecipando a peregrinação de 13 de Outubro, o bispo disse que “hoje não é só o Governo que comanda a situação, é a Europa e somos surpreendidos por aquilo que se chama o turbo-capitalismo financeiro”.
António Marto foi muito crítico em relação à actual situação política e económica, notando mesmo que há uma grande impotência dos políticos – mesmo de grandes potências como os Estados Unidos, a Alemanha ou a França. “São incapazes de estabelecer regras para governar esta situação, que é intolerável” e da qual “são vítimas os mais débeis, os mais fracos e os mais pobres”, afirmou. Mas, acrescentou, é “cada vez mais urgente” regular os mecanismos financeiros, para enfrentar esta “face de uma globalização completamente desregulada, desgovernada”.
O bispo de Leiria-Fátima considera que, em Portugal, as pessoas estão a “tomar consciência do que significa a crise em todas as dimensões”. Desde logo, acrescentou, “ela exige uma mudança de novos estilos de vida, seja a título pessoal, familiar ou das próprias instituições”. E também exige “muito diálogo, muita concertação”, bem como “uma vontade política e das instituições”, como também de empresários e sindicatos, “de encontrar o diálogo e não cair em oposicionismos radicais”.
D. António Marto considerou “natural” que venha a acontecer “alguma agitação” social, sobretudo por parte daqueles que são mais atingidos pela crise. “Mas isso faz parte” e deverá antes “suscitar a exigência de crescimento em solidariedade”. É que, justificou, “estamos todos na mesma barca, corremos o risco de irmos todos ao fundo”.
Referindo-se aos apelos do Papa no sentido da “refundação do sistema financeiro” internacional, o bispo considerou que a Igreja Católica “tem falado o suficiente, mas todos nos sentimos impotentes para dizer qual é o caminho certo”. E repetiu: “Sabe-se que é necessária uma regulação e um novo paradigma de desenvolvimento, mas não é competência técnica da Igreja dizer qual.”
D. António acrescentou que é preciso também “pôr a funcionar o sistema de justiça” e reconstruir “a confiança nas instituições, que foi muito abalada”. Bem como fazer “crescer a solidariedade e a sobriedade”.
No início oficial da peregrinação, António Marto referiu-se também à jornada de oração pela paz no mundo que o Papa Bento XVI presidirá em Assis (Itália), no próximo dia 27. “Além dos grandes líderes espirituais, ela está aberta a agnósticos, não-crentes, que se reconhecem nesta busca para a paz no mundo”, referiu.
Será um acontecimento “de grande e rico significado simbólico no momento presente em que se vive uma crise de insegurança a nível mundial”, disse o bispo. E acrescentou: “Trata-se de uma aposta pelo diálogo como arma mais inteligente e pacífica para responder aos pregoeiros do terror e do terrorismo que utilizam a religião para semear o ódio e dividir o mundo.” E exemplificou com o que se passou entre domingo e segunda, no Egipto, “com a perseguição à minoria cristã dos coptas”.
A jornada de Assis é, assim, uma “aposta na espiritualidade da paz, para dar uma alma à globalização, superar o egoísmo e incrementar uma cultura de solidariedade”. Trata-se, enfim, de “ser capazes de globalizar a justiça e a solidariedade neste momento de crise mundial”.


