O Papa Bento XVI garantiu hoje a sua “total e inquestionável solidariedade” com os judeus, um dia depois de o Grande Rabinato de Israel, a autoridade religiosa suprema do país, ter cortado as suas relações com o Vaticano, repudiando as declarações de um bispo integrista que negou em público a morte de seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial.
A nova polémica entre os líderes católicos e judaicos desenhava-se desde a última quinta-feira, altura em que uma televisão sueca transmitiu uma entrevista com Richard Williamson, um dos quatro bispos ordenados em 1998 pelo arcebispo Marcel Lefébvre, excomungado uma década antes por João Paulo II.
Na entrevista – gravada em Novembro mas só transmitida quando o Vaticano se preparava para anunciar o levantamento da excomunhão aos quatro prelados do grupo integrista Fraternidade Sacerdotal S. Pio X.–, Williamson pôs novamente em causa a dimensão do Holocausto, contrariando os factos históricos. “Penso que poderão ter morrido 200 ou 300 mil judeus nos campos de concentração nazis, mas nenhum em câmaras de gás”, rejeitando mesmo a existência deste método de extermínio: “As provas históricas são claramente contra [as teses de] gaseamento deliberado de seis milhões de judeus em câmara de gás”.
As declarações foram repudiadas pelos líderes religiosos judaicos, mas o silêncio do Vaticano e a confirmação, no sábado, do levantamento da excomunhão de Williamson, entre os quatro bispos, acabaram por provocar uma nova ruptura entre os judeus e a Santa Sé, ainda que o Vaticano tenha dito que a decisão em nada indiciava que o Papa partilhava as opiniões do bispo integrista.
Ontem, o Grande Rabinato de Israel anunciou por carta a ruptura das relações com o Vaticano, dizendo que o diálogo com a Igreja Católica não poderá continuar “antes de um pedido de desculpas público do bispo Williamson e a retirada das suas lamentáveis declarações”. “Até que este assunto seja resolvido”, a reunião com a comissão de relações inter-religiosas da Santa Sé, inicialmente prevista para a próxima semana, não terá lugar."
Numa tentativa para resolver esta polémica, que se segue a uma outra com a comunidade muçulmana a propósito de uma palestra proferida em 2006 na universidade de Ratisbona, Bento XVI reafirmou hoje, durante a audiência semanal no Vaticano, o seu “afecto” e “total e inquestionável solidariedade com os irmãos” judeus. “Espero que a memória da Shoah [Holocausto] leve a humanidade a reflectir sobre o poder imprevisível do ódio quando se apodera do coração do Homem”.
Sem mencionar o nome de Williamson, o Papa recordou a sua visita a Auschwitz, em 2006, para voltar a condenar “o assassínio impiedoso de milhões de judeus, vítimas inocentes de um cego ódio racial e religioso”.
No final da audiência, o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, disse esperar que as palavras de Bento XVI sejam “suficientes para responder às dúvidas sobre a posição do Papa e da Igreja Católica” em relação ao Holocausto e que o Grande Rabinato de Israel possa continuar com o Vaticano um “diálogo sereno e frutuoso”.
Em declarações à Reuters, Elie Wiesel, sobrevivente dos campos de extermínio nazis e prémio Nobel da Paz, lamentou que o Papa, ao reabilitar o bispo Williamson, tenha permitido a identificação da Igreja Católica com “a face mais vulgar do anti-semitismo”.
O grande rabino de Roma, Riccardo di Segni, afirmou entretanto, citado pela AFP, que a declaração do Papa era “necessária e bem-vinda”. As palavras de Bento XVI, esta manhã, contribuem para “clarificar as afirmações equívocas, quer sobre o negacionismo, quer sobre o Concílio Vaticano II”, disse Segni.


