As urgências do Hospital de São Francisco Xavier, que servem cerca de um milhão de pessoas no distrito de Lisboa, estão a funcionar com "condições de terceiro mundo". A acusação é do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, que já alertou a administração do centro hospitalar para o "caos absoluto" em que está mergulhado o serviço.
O bastonário da Ordem dos Médicos fez uma visita-surpresa ao São Francisco Xavier para fiscalizar a forma como os médicos internos (ainda em período de formação) estavam a ser acompanhados, mas o que acabou por encontrar foi um "hospital tipo Iraque", mercê das obras a que está sujeito desde dia 7 de Julho.
Pedro Nunes diz ter-se deparado com uma sala de trauma "atafulhada de gente", quatro macas encostadas umas às outras, sem espaço para os enfermeiros poderem passar e administrar medicação. Havia apenas uma cadeira para os dois ortopedistas de serviço que "tinham que estar sentados à vez", conta o bastonário. Pedro Nunes adianta que a administração do hospital sabia que a unidade ia entrar em período de obras e devia ter acautelado esta situação alugando, por exemplo, contentores com ar condicionado, como aconteceu no Hospital de São João, no Porto.
O Sindicato dos Médicos do Sul faz também violentas críticas às condições em que funciona o Serviço de Urgência do hospital, que desde 2005 integra o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental. "É um cenário rocambolesco de macas amontoadas e até já temos relatos de doentes deitados no chão por cima de cobertores", censura Pilar Vicente, que juntamente com outros colegas do sindicato visitou na segunda-feira a unidade hospitalar.
Segundo a dirigente do Sindicato dos Médicos do Sul, as salas de isolamento "não estão suficientemente apetrechadas" e a sala de reanimação "não tem espaço para se fazer adequadamente as manobras necessárias". Pilar Vicente diz ainda que os utentes são examinados num cenário de "promiscuidade total" (a própria triagem é feita atrás de biombos em pleno átrio das urgências).
"As equipas estão reduzidíssimas. Chega a haver nas urgências apenas uma pessoa diferenciada", acusa Pilar Vicente. "Nem sequer há uma definição de escalas dos médicos e os horários são inadmissíveis. Um profissional entra às duas da manhã e sai no dia seguinte a essa hora. Já houve violações e agressões, porque a zona é insegura".
Para a médica do Hospital de São José, "o São Francisco Xavier já está mal de nascença, mas nada tem sido feito para melhorar a situação". Aliás, diz a sindicalista, as intervenções que agora estão em curso não passam de "obras de maquilhagem" que nada mais trarão ao Serviço de Urgência do que novos constrangimentos, como a diminuição do número de salas para pequenas cirurgias (das duas existentes ficará uma). "As obras vão durar cinco meses, prolongando-se para o Inverno, época de maior afluência. Como vai ser?", questiona.
"Condições são as possíveis"
Os problemas detectados pelo bastonário já foram resolvidos, garante a administração do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, que ontem recebeu o relatório da visita de Pedro Nunes. "Quando o dr. Pedro Nunes cá veio as obras tinham começado há uma semana e entretanto fomos fazendo os ajustes necessários ao melhor funcionamento das urgências", sustenta o presidente do conselho de administração, Pedro Abecasis.
"Estamos a fazer a drenagem automática dos doentes estáveis para camas desocupadas no centro hospitalar, o atendimento normal e o ambulatório já estão separados e as deficiências na sala de trauma corrigidas. Mas claro que se as condições antes das obras já eram péssimas, agora não podem estar melhores, com a Urgência cortada a metade", justifica Pedro Abecasis. E acrescenta: as obras "profundas" vão acabar com as áreas comuns de atendimento e criar uma área vigiada para doentes à espera de exames. A informatização da Urgência será outra das novidades.


