As pessoas não querem ouvir falar de ambiente, mas isso vai passar

03.04.2009 - 09:03 Por Ana Machado
De cada vez que o mundo colapsa há temas que as pessoas não estão propriamente interessadas em ouvir falar, reconhece Robert Cox. O ambiente é um dos mais pobres parentes nesta matéria. Quando as bolsas caem a pique, os bancos fecham, os bens de consumo passam a artigos de luxo e as pessoas perdem os empregos e as casas todos os dias, quem é que quer ouvir falar no aquecimento global?
"Isso também aconteceu quando se deu o 11 de Setembro. Acontece sempre que ocorrem acontecimentos muito dramáticos. E durante as recessões económicas as pessoas preocupam-se menos com as questões do ambiente. Mas é algo cíclico. Depois voltarão a interessar-se", garante o sociólogo, investigador da Universidade da Carolina do Norte, em Chapell Hill, EUA, que veio pela primeira vez a Lisboa esta semana a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, da Agência Europeia do Ambiente e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa para participar na conferência "Os media e o ambiente: entre a complexidade e a urgência", que hoje termina.
"O ano passado até houve um crescimento do interesse pelas alterações climáticas e pelo aquecimento global. Mas com a crise acabou. É de facto secundário. E agrava-se com o facto dos jornais viverem tempos de enormes dificuldades", diz. Quase tanto como o aquecimento global, é este assunto da crise dos media que também o ocupa e preocupa. E é sobre isso que se preparou para falar em Lisboa. "Os jornalistas de ambiente são uma espécie em vias de extinção", graceja.
Estudos indicam que é na televisão que as pessoas mais confiam para estarem informadas. E isso aplica-se também aos problemas do ambiente. Mas o sociólogo nunca esperou muito da tv: "Só dá a informação em flashes, resume o essencial. Sabe o que as pessoas mais gostam e no que mais confiam para se informarem sobre o aquecimento global? No boletim meteorológico. Se o pivô do tempo diz que amanhã vai estar frio, que afinal o aquecimento global não se sente... eles acham que está tudo resolvido".
E sobre os jornais, Cox só precisa de citar alguns exemplos recentes para fundamentar outros receios: "O New York Times, que até faz um bom trabalho, despediu 100 jornalistas". E já anunciou que precisa de fazer mais cortes de despesas este ano. E não é só a saúde dos jornais, mas o modo como os media se estão a transformar, na era da Internet.
"Acredito que os jornais que tinham um bom tratamento dos temas de ambiente na sua edição impressa, continuam a fazê-lo na Internet. Mas quando jornais como o Seattle Post-Intelligencer acaba com uma redacção de 165 jornalistas e fica com 20 na Internet não estou certo que isso seja possível".
O mundo da Internet levanta ainda outro risco. Cox fala da dificuldade em encontrar informação fidedigna num mar infinito de informação que a Internet oferece: "Há muito trabalho bom mas também muita informação política e ideológica. É um campo minado onde quase nunca há editores".
Os cépticos da Exxon Mobil
As boas notícias, segundo Cox, é que o jornalista de ambiente, esse animal em vias de extinção, é, na era da Internet, um peão fundamental: "Não imagino um mundo sem bom jornalismo, seria um mundo muito mais pobre. O mundo não pode ser dado em directo, tem de ser mediado, o papel do jornalista aí não acaba. E é importante na era da Internet, que o jornalista funcione como uma espécie de mapa, de GPS, para encontrar a informação fiável no meio de tudo o resto".
E não vale a pena tentar mais perpetuar o mito da objectividade, diz o sociólogo para quem o jornalista "objectivo" só baralha o leitor. O jornalista deve saber sim desmontar os factos científicos, interpretar, defende: "Ser objectivo é muito importante. Mas o que vimos até hoje é que infelizmente os jornalistas objectivos acham que devem dar o mesmo espaço aos cépticos. Questionar a ciência e dar igual espaço aos cépticos é confundir as pessoas. Se formos objectivos ficamos pelo que a ciência diz, que é muito claro. O planeta está a aquecer e o principal culpado é o homem. Os cépticos vêm da Exxon Mobil, e dar-lhes o mesmo espaço é um erro".

