Cada semana, sua palavra. Uma rubrica da Pública que começou em Fevereiro de 2011 e que reproduzimos aqui, em forma de dicionário cronológico, mas ao contrário: do presente para o passado. Por isso começamos com a palavra “fim”. A única inédita.
A primeira escolha foi “revolta”, a que se seguiria pouco depois “austeridade”, com Março ainda a começar. Em Abril, caímos no “lixo”, passámos pelo “resgate” e acabámos na “troika”. Mas “presidenta”, “madeira”, “buraco”, “soberania” ou “indignação” também entraram no léxico dos portugueses durante o ano que passou. Houve ainda lugar para “bola”, “liga”, “festival”, “escola”, “supernova” ou “moscatel”. Em Novembro, chegou a “greve” e em Dezembro o “património”. Faltou-nos a “emigração”.
Dezembro
Fim Substantivo masculino que significa “termo”, “conclusão”, “limite”. Neste fim de ano, não é apenas o calendário que termina. Há “cessação” de direitos e expectativas (em Portugal e na Europa), mas os dicionários não tiveram ainda tempo de o registar. Para os mais dramáticos, “fim” é o “‘Apocalipse’, livro da Bíblia que nos fala do fim dos tempos”. Não exageremos. “Fim” também pode querer dizer “objectivo”, “finalidade”. Seja diminuir o défice ou “dobrar o cabo das Tormentas”, como se escutou por estes dias. Espera-se que “dobrar” tenha sido usado no sentido de “ultrapassar” e não de “multiplicar por dois”. Era mesmo o fim...
18-12
Currículo Do latim, “curriculum”, o mesmo que “carreira”. Mas também “atalho”, no sentido de “desvio para encurtar caminho”, e ainda “curso”. Um dos dicionários consultados explica “currículo” (logo na primeira entrada) como “acto de correr”. A expressão “curriculum vitae” significa “relação dos estudos, honras, cargos, trabalhos realizados, dados biográficos que qualificam uma pessoa”. Dito de outra forma, “sucessão dos factos que marcam cultural e profissionalmente a carreira” de alguém. Deve manter-se actualizado, sobretudo em cenário de potenciais despedimentos. Mas outro sentido para “currículo” ocupou recentemente os actores da educação, o de “conjunto de conteúdos ou matérias de um curso escolar ou universitário”. No caso, o do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, sujeitos agora a uma revisão “curricular” – adjectivo “relativo à carreira escolar”. Anuncia-se reforço nas disciplinas essenciais e menos horas de aulas. Um “atalho” para a eficiência?
11-12
Património Substantivo masculino que significa “herança paterna” ou “bens de família”. Explicações mais detalhadas e abrangentes: “Qualquer espécie de bens, materiais ou morais, pertencentes a alguém ou a alguma instituição ou colectividade”. Também se regista como “dote necessário para a ordenação de um eclesiástico”. O mais próximo de “património imaterial” que se encontrou foi a referência a “bens morais”. Isto a propósito do fado e do seu reconhecimento recente como “pertença” da humanidade (pela UNESCO). O mundo é agora “proprietário” do fado, mas pode perder o Alto Douro Vinhateiro. “A barragem de Foz Tua tem um ‘impacto irreversível e ameaça os valores’ que estão na base da classificação”, lia-se nas notícias da semana que passou. Talvez os portugueses sejam melhores na imaterialidade. “Fado”, além de “canção típica lisboeta, de índole plangente e fatalista”, significa “destino”, “sorte”. E se o fado (canção) português é património. O fado (destino) de quem cá mora (e trabalha) parece ser o de ficar sem ele, o património. Não o imaterial, o outro.
Novembro
27-11
Greve “Interrupção voluntária e colectiva do trabalho por parte dos assalariados com o objectivo de reivindicar aumento de salários e melhores condições de trabalho.” Nem sempre é por isso.


