"Arrastão" de Carcavelos: polícia suspeita de crime organizado, mas não tem provas 
18.06.2005 - 07:32 Por José Bento Amaro, PÚBLICO
A PSP suspeita que o "arrastão" do passado dia 10, na praia de Carcavelos, tenha sido um acto premeditado, mas não possui, actualmente, provas nem suspeitos que permitam afiançar ter-se assistido a um acto criminoso organizado.
"É estranho que se tenham reunido num só sítio e à mesma hora tantas pessoas de bairros diferentes. Se tivermos em conta que o "arrastão" de Carcavelos aconteceu no Dia de Portugal, tudo leva a supor que existe alguma organização subjacente. Mas isto são apenas suposições. Para se dizer que houve algo mais [criminalidade organizada], é preciso provas e até agora, tanto quanto se sabe, as mesmas não existem", contou ao PÚBLICO um graduado da PSP da Divisão da Amadora.
A PSP, sobretudo o efectivo da zona da Amadora, onde se localizam os bairros (Cova da Moura, 6 de Maio, Azinhaga dos Besouros, Estrela de África, Santa Filomena, Estrada Militar, Fontainhas e Quinta da Laje) de residência da maior parte dos suspeitos, tem algumas listagens de jovens delinquentes - alguns deles já referenciados em crimes violentos e assaltos em comboios -, mas, até ao momento, ainda não conseguiu estabelecer qualquer conexão entre estes e eventuais mandantes do "arrastão".
"Os gangs não têm composições fixas. Há indivíduos que hoje estão num grupo e no dia seguinte já acompanham outros. Se for preciso, três dias depois já andam com outros do primeiro grupo, outros do segundo e até outros que nunca foram referenciados. Quando se fala de grupos de jovens negros, nunca é seguro dizer-se que pertencem a um determinado gang, porque na verdade eles dividem-se por vários", afirma um responsável policial.
Esta diversidade, ainda segundo a polícia, dificulta o trabalho de identificar os líderes, sobretudo quando se está em presença de grupos etários baixos. "Normalmente, a partir dos 20 anos, os jovens negros dedicam-se a outro tipo de crimes que não a arruaça ou os roubos na via pública, como por exemplo os "arrastões". Muitos começam a ligar-se mais ao tráfico de droga e então, ao contrário dos mais novos, já não assumem um comportamento de afronta à polícia. Procuram, pelo contrário, manter-se discretos", declara o mesmo oficial da PSP.
No dia 10, a meio da manhã, os comboios da Linha de Sintra receberam vários grupos compostos por dezenas de jovens negros. Muitos levavam toalhas ao ombro, iam todos de calções e a maior parte calçavam sapatilhas. Eram provenientes, na sua maioria, dos diversos bairros degradados da Amadora e muitos deles, tal como o PÚBLICO constatou na ocasião, nem sequer se conheciam, pois aproveitaram a ocasião da entrada nas carruagens para se apresentarem.
De concreto sabe-se apenas que iriam encontrar-se numa praia da Linha do Estoril (no caso Carcavelos). "Há informação, recolhida junto de pessoas que se encontravam na praia, que se formou um grande grupo. Depois começaram a correr, a roubar e a bater em quem lhes fazia frente. Mas ninguém sabe dizer de onde partiu a ordem. Ninguém sabe apontar quem lhes disse para, nesse dia, se juntarem em tão grande número numa praia", refere um dos polícias com quem o PÚBLICO falou.
Na última semana, o PÚBLICO andou por alguns dos bairros de onde terão vindo alguns dos jovens com participação nos desacatos. Na maior parte dos casos, os jovens contactados não quiseram fazer qualquer comentário, preferindo acusar a polícia e os jornalistas de racismo. No entanto, alguns - que juram nunca ter participado em qualquer desordem - confirmaram que estiveram em Carcavelos, muitos deles a convite de amigos, mas não conseguem identificar qualquer eventual líder.
Restam 1200 caracteres
Os comentários deste site são publicados sem edição prévia, pelo que pedimos que respeite os nossos Critérios de Publicação. O seu IP não será divulgado, mas ficará registado na nossa base de dados.
Quaisquer comentários inadequados deverão ser reportados utilizando o botão “Denunciar este comentário” próximo da cada um. Por favor, não submeta o seu comentário mais de uma vez.

