Área ardida em 2006 é a mais baixa dos últimos sete anos

14.10.2006 - 09:14 Por Adelino Gomes, Mariana Oliveira (PÚBLICO)
Temos de recuar a 1999, quando se queimaram pouco mais de 70 mil hectares na floresta, para encontrar uma área ardida inferior aos 72 mil hectares que a Direcção-Geral de Recursos Florestais contabilizou até 30 de Setembro. Se caminharmos mais dois anos para trás, detectamos um número significativamente inferior: 30 mil hectares. Mas a média dos últimos cinco anos, inflacionada pelos dois piores anos de sempre, 2003 e 2005, fica-se nos 220 mil hectares, muito acima do valor deste ano.
As mortes, essas, continuam. Em 2006, os fogos florestais estão associados à morte de nove combatentes e um civil. Os prejuízos não se comparam com os do ano passado, mas não deixam de se notar. O fogo queimou totalmente uma primeira habitação e parcialmente outras três. Segundas habitações completamente ardidas foram dez. Os dados são do Ministério da Administração Interna.
Este é o balanço até 30 de Setembro, já que só amanhã termina o prolongamento da fase Charlie, a que abrange o período mais crítico dos incêndios. Nestes últimos dias, no entanto, a chuva tem sido frequente e não tem havido registo de fogos de relevo. Até 30 de Setembro, as ocorrências foram 21.605, abaixo dos quase 25.600 da média dos últimos cinco anos.
Nas análises há diferentes visões, mas numa coisa quase todos concordam: houve uma ajuda da meteorologia e sentiram-se melhorias no dispositivo de combate. Joaquim Sande Silva, da Liga para a Protecção da Natureza, não nega que os resultados tenham sido bons, mas pede cautela na avaliação - acredita que as debilidades do sistema se mantêm. "Falta formação aos bombeiros, o número de ignições continua muito alto, a gestão dos combustíveis florestais está por fazer", enumera. Para o futuro, fala em profissionalizar o combate e concentrar os incêndios num ministério. "Os fogos estão dispersos por três ministérios: o do Ambiente, o da Agricultura e o da Administração Interna".
Ordenamento do território é fundamental
José Miguel Cardoso Pereira, docente do Instituto Superior de Agronomia, acredita que este ano não foi excepcionalmente bom. "Os outros é que foram excepcionalmente maus", afirma. Insiste no facto de terem ardido 1,1 milhões de hectares nos últimos cinco anos. "É uma extensão brutal, que em grande parte não recuperou o suficiente para arder de novo e, por isso, serve de barreira à propagação dos incêndios", defende. "É preciso começar a investir a sério na prevenção, foram feitas estas ano acções de fogo controlado [técnica de prevenção que aproveita para queimar no Inverno locais estratégicos que servem de barreira à progressão dos grandes incêndios no Verão], mas numa área muito reduzida".
O ex-director da Autoridade Nacional para os Fogos Florestais (ANFF), Ferreira do Amaral, diz que os resultados foram "óptimos" e atribui-os em parte à meteorologia e à maior motivação dos responsáveis pelo combate, essencialmente na primeira intervenção. O reforço na estrutura de comando nacional e distrital, recomendado no relatório final da ANFF, também tornou o combate mais eficaz, acredita. O general elege a área logística como uma das que necessitam de evoluir: "Temos de ser mais eficazes no reabastecimento do combustível e da água, na alimentação e na rotação do pessoal". Sublinha também que algo tem de mudar na Escola Nacional de Bombeiros, gerida pelo presidente da Liga Portuguesa de Bombeiros. "A escola tem de ter programas curriculares estáveis e um núcleo científico permanente".
Manuel Rainha, técnico florestal ligado há 12 anos aos incêndios florestais, insiste que estamos a atacar o fenómeno da forma errada. Explica que o maior investimento devia ser feito no ordenamento territorial e na gestão florestal e não no combate, como tem sido feito até aqui. Para responder ao problema da fragmentação do território, diz que é preciso apostar nas associações de produtores florestais e na concretização das Zonas de Intervenção Florestal. Rainha lamenta que os planos directores municipais tenham sempre negligenciado o risco de incêndio, mas está confiante que a situação está a começar a inverter-se. "Se o ordenamento do território não se fizer, os incêndios vão começar a entrar pelas grandes cidades, como aconteceu em Coimbra", afirma.

