• Mais de nove mil milhões de petróleo
  • Piotr Marzewski, vultos que ganham vida
  • O desafio do Facebook é o negócio dele sermos nós

A nova vida dos peixes

Aquacultura: Quando o peixe não vem do mar

25.01.2010 - 19:15 Por Raquel Ribeiro

  • Votar 
  •  | 
  •  24 votos 
Na Pescanova, cada pregado tem um bilhete de identidade: sabe-se quem são os pais, de onde veio, por onde passou e o que comeu Na Pescanova, cada pregado tem um bilhete de identidade: sabe-se quem são os pais, de onde veio, por onde passou e o que comeu (Adriano Miranda)
Do Governo aos cientistas, aquacultores grandes e pequenos, na nutrição e no ambiente, os actores do palco da produção de peixe em cativeiro em Portugal partilham consensos: a aquacultura veio para ficar. Mas ainda há medos, preconceitos. Agora só falta o consumidor.

Sábado, 16 de Janeiro, dez da manhã. Hipermercado Continente, Porto. Banca do peixe: robalo grande do alto mar fresco, 22,95 euros/kg; robalinho de aquacultura, 5 euros/kg.

Quinta-feira, 14 de Janeiro, dez da noite. Num restaurante em Lisboa, um grupo de amigos quer comer peixe.

Cliente — A dourada é do mar?

Empregado — Sim, sim. É selvagem.

Domingo, 27 de Dezembro de 2009, à revista Pública, um homem de Caxinas, bairro de pescadores de Vila do Conde, diz: “Aqui a pesca não tem dado. As redes dos barcos grandes apanham o peixe grande e o peixe pequeno. E também as regras de hoje têm taxas e mais taxas, e só se pode apanhar peixe numa determinada zona em que não há peixe.”

Falar hoje de aquacultura é falar destas três realidades: para o consumidor, a diferença de preço entre o peixe cultivado e o selvagem; o preconceito sobre um peixe que não é “do mar”; e a inevitável realidade de que as reservas de peixe no mar estão a esgotar-se.

Mitos e realidades

Há 30 anos, a “menina pescadinha” entrava na casa dos consumidores bradando o slogan: “Peixe congelado, alegria do cozinhado.” Há 30 anos, o pai de Maria Teresa Dinis, 64 anos, pioneira da aquacultura em Portugal, ia a Sesimbra buscar peixe fresco e dizia: “Peixe congelado, nunca!” O peixe congelado chega hoje a metade dos lares portugueses. A investigadora acredita que “este é o mesmo desafio que a aquacultura enfrenta”.

Diz-se que o peixe de aquacultura é mais gordo, que não sabe ao mesmo. Mas, em Portugal, contam-se pelos dedos as pessoas que já comeram salmão selvagem. As reservas do consumidor relativamente ao peixe produzido em cativeiro são enormes quando comparadas, por exemplo, ao camarão cuja produção é quase toda de aquacultura.

O consumidor ocidental tem um gosto requintado: por exemplo, não come carpa, peixe de água doce cultivado na China. Prefere o robalo, a dourada, o salmão (para não falar no bacalhau, no atum, e no alabote, consumido nos Estados Unidos, Canadá e Norte da Europa), peixes em vias de extinção ou perto da ruptura, cuja elevada procura só poderá ser suplantada pela aquacultura.

Diz-se que o peixe de aquacultura deixa um rasto de destruição nos ambientes marinhos. A produção de camarão nas Filipinas devastou 109 mil hectares de mangais pantanosos desde os anos 70, o equivalente a dois terços da área de mangal do país. No entanto, num relatório de 2009, a Greenpeace coloca Portugal no ranking dos países que mais consomem peixe de origem não sustentável. Isto quer dizer que a maioria dos supermercados portugueses não olha a meios para vender o peixe: muito vem de práticas ilegais de pesca. “A destruição do equivalente a dez campos de futebol no fundo dos oceanos só tem a duração de um suspiro”, escreveu a porta-voz da Greenpeace em Portugal, Lara Teunissen, no relatório.

Diz-se que o peixe de aquacultura tem um elevado nível de antibióticos e hormonas. Que os peixes são as novas galinhas do mar. Que as rações contêm demasiado peixe ou demasiada soja. Que, para não se dar peixe de comer ao peixe (apesar de, no mar, o peixe comer naturalmente outro peixe), se alteraram as dietas. Que o salmão, por exemplo, poderá ser, dentro de pouco tempo, vegetariano, o que poderá levar à sua alteração genética. Contudo, um estudo de 2007 encontrou vestígios elevados de mercúrio em mais de 600 rios dos Estados Unidos e Canadá. E um estudo da revista Science em 2008 prova que esses vestígios passam para a cadeia alimentar através de pássaros que se alimentam de seres na água contaminada.

Num artigo na Nature de 2009, Carlos M. Duarte, investigador em Maiorca, afirmava que, “apesar de parecerem peixes, estes assemelham-se cada vez mais a porcos”.

Vacas loucas, peste suína, gripe das aves, gripe suína, até, são escândalos alimentares que o consumidor não quer voltar a ver.

Da China a Mira

Estatísticas

  • 2191 leitores
  • 13 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1419636

Comentário + votado

A solução é comer menos, não é produzir mais!

Já estragámos a carne com as hormonas e os cereais com os transgénicos... já ...

Anónimo

26.01.2010 11:04

X

Mais em Sociedade (26 de 29 artigos)

Açores: alegações finais de julgamento de caso de abuso sexual de menor marcadas para Fevereiro