O peixe e a carne estão fora da alimentação de uma Cooperativa de Ensino onde as crianças entre os três e os cinco anos ajudam a pôr a mesa, a cuidar da horta e por vezes até a cozinhar. Na Vela Verde, em Alfragide, o regime alimentar é ovo-lacto-vegetariano e biológico, uma opção com "uma fundamentação ética, mas sobretudo uma questão ecológica".
"Consideramos que não há recursos alimentares suficientes no mundo para se comer tanta carne e tanto peixe. É bom que as crianças conheçam, desde pequenas, alternativas que sejam tão válidas em termos nutritivos", explicou à Lusa Margarida Zoccoli, mãe e uma das fundadoras da Vela Verde.
A creche e jardim-de-infância, que funciona há nove anos, foi criada por um grupo de pais que, "não encontrando o que queriam para as suas crianças, resolveram fazer um projecto à sua medida".
O vegetarianismo é opção de vida apenas para uma das 25 crianças que este ano frequentam aquela cooperativa de ensino e há muitos que ali chegam sem gostar de vegetais, mas "adaptam-se".
"Se a criança entra para um grupo estruturado onde há determinados hábitos, por uma questão de sobrevivência, ela adapta-se. Começam por comer um bocadinho só e no dia seguinte já comem um bocadinho maior", contou Margarida.
É desta forma, "muito devagarinho", que crianças como o João de quatro anos começam a comer a dieta da escola "sem problema nenhum". "Eu antigamente não gostava de couve e disso, mas agora papo", contou o menino durante o almoço, em que até repetiu a salada.
Na Vela Verde, a carne e o peixe são substituídos por outras proteínas animais (ovos, leite e queijo), proteínas vegetais (tofu, seitan e soja) e proteínas que se encontram nas leguminosas (feijão, grão, lentilhas). Esta opção alimentar está também ligada a outros aspectos pedagógicos articulados, explicou Margarida Zoccoli.
Ali, cada ano lectivo "começa do zero". No jardim-de-infância as crianças já percebem que há coisas que é preciso ajudar a fazer, então marcam num mapa as tarefas de cada um, como pôr a mesa ou tratar da horta. "A aprendizagem das crianças é feita em contexto real. Por exemplo, não é vamos brincar às hortas, mas sim vamos fazer uma horta", referiu.
Naquela cooperativa, "as coisas feitas com as crianças são levadas a sério pelos adultos e a opinião delas tem importância". No dia em que a Lusa visitou a Vela Verde a tarefa de pôr a mesa coube a João e à colega Alice, de três anos. Mal acabaram de arrumar os brinquedos e depois de uma ida à casa-de-banho (sozinhos), os dois empenharam-se a sério na tarefa de esticar a toalha e colocar as colheres de metal nos pratos de loiça onde foi servida a sopa de espinafres.
Segundo a mãe de Alice, Helena, que naquele dia foi à escola ajudar a preparar o almoço porque uma das cozinheiras adoeceu, a menina "também ajuda em casa e gosta de repetir as rotinas que aprende na escola". Garantia que é dada pelas próprias crianças.
Depois de explicarem como se põe a mesa e garantirem que sabem fazê-lo, o João revelou que ajuda a avó "a preparar peixe", e o Martim, de três anos, assegurou que ajuda na cozinha de casa.
Dar continuidade em casa ao que se passa dentro da sala de aula é um dos objectivos da comunicação diária entre a escola e os pais, por e-mail, telefone ou através do sumário do dia que os meninos ajudam a escrever e é afixado na porta da sala.
A comunicação até passa pelo intercâmbio de receitas. "Temos percebido que muitas famílias estão a adoptar um regime alimentar idêntico ao da escola. Ajudamos as pessoas a encontrarem alternativas que não sabem onde estão", referiu Margarida Zoccoli.


