Aos 82 anos vasculha nos jornais histórias de famílias carenciadas e vai à sua procura para ajudar. D. Manuel Martins, o "bispo vermelho", que defendeu as gentes de Setúbal nos difíceis anos 80, continua activo e na terça-feira assiste ao relançamento da sua biografia.
"Eu pergunto-me quem sou eu e o que fiz para merecer assim a atenção destas pessoas", desabafou o prelado, que na década de 80 incitou a população a ocupar casas devolutas e criou um fundo para os mais carenciados, quando as fábricas de Setúbal começaram a fechar deixando famílias inteiras no desemprego e sem dinheiro.
A história do primeiro bispo de Setúbal - contada na sua biografia, intitulada "D. Manuel Martins - O Bispo de Todos" e escrita por António de Sousa Duarte - começa em 1975 e ainda está viva na memória de D. Manuel a cerimónia da ordenação episcopal, que poderia ter sido "o fim do mundo".
Em pleno Verão Quente, um ritual sumptuoso levou "a rapaziada da terra" a manifestar-se contra quem achavam ser um "bispo reaccionário que vinha de fora".
"Dezoito autocarros" e outros tantos carros "espampanantes" entraram na cidade para assistir à cerimónia e, na hora da ordenação, os sinos das igrejas começaram a tocar chamando a atenção dos locais.
"No momento da minha ordenação, provocou-se uma manifestação cá fora", conta, recordando que "se houvesse uma chispa, um palavrão, um bofetão ou coisa parecida, era o fim do mundo".
Bispo espera que crise nãos seja igual à da década de 80 em Setúbal
Foi prelado em Setúbal durante 23 anos e, tirando esse episódio, D. Manuel manteve sempre uma relação muito próxima com a população, lutando pelos seus direitos e fazendo "muitas coisas de que se calhar hoje não seria capaz".
Na década de 80, Setúbal foi palco de uma crise sem precedentes e o encerramento das fábricas deixou no desemprego grande parte da população local.
"Gente que não podia pagar renda, gente que não recebia ordenados, que estava despedida, que tinha salários em atraso, que passava fome e ainda por cima era despejada", recorda. Nessa altura defendeu publicamente "que os tribunais e polícias deviam recorrer à objecção de consciência quando tinham de despejar alguém".
"As pessoas não acreditam no que se passou lá, os suicídios que aconteceram, o recurso aos caixotes do lixo. (...) Eu nem me quero lembrar", diz.
A sua acção em defesa dos desfavorecidos valeu-lhe o epíteto de bispo vermelho, o que aos seus olhos significa apenas que desenvolveu um trabalho "evangélico".
Sobre a situação actual do país, o prelado diz-se preocupado e afirma que "gostaria muito que os problemas que se venham a viver em Portugal não tivessem comparação" com o que Setúbal viveu nos anos 80.
Mas a realidade com que lida diariamente fá-lo temer por um futuro negro: "É de fazer doer a alma, tantas e tantas situações que já existem e tantas e tantas outras que vão aparecer."
Para D. Manuel, é preciso que o Governo olhe com atenção especial para os grupos mais desfavorecidos e que os proteja "como um pai protege um filho com mais necessidades".
Aos 82 anos, o bispo vermelho continua a trabalhar em prol da comunidade, muitas vezes parte da sua iniciativa descobrir quem mais precisa de ajuda. "Vejo no jornal e vou à procura delas com os párocos e cada vez vão sendo mais, infelizmente", disse.
Na terça-feira, é lançada a reedição corrigida e actualizada da sua biografia, que conta o que andou a fazer o sacerdote após ter resignado ao bispado de Setúbal.
"As pessoas não acreditam, mas eu não li a biografia", referiu, explicando que nunca lê o que escrevem sobre si. No caso das biografias entende que são livros que só contam "metade" da história, "porque, enfim, a parte que não é boa nunca está lá."
Sobre a nova edição, D. Manuel conhece apenas o prefácio de Rogério Alves: "Li o texto e parece que não foi feito para mim, mas sim para um santo que está lá nas alturas no céu".


