Na Cadeia da PIDE em Caxias, dentro de uma cela colectiva com mais de dez mulheres, na maioria militantes comunistas, a alta dirigente do PCP Fernanda de Paiva Tomás e a médica e apoiante do PC de Angola, Julieta Gandra, viveram, durante cinco anos, uma paixão e uma relação homossexual.
As duas mulheres sofreram um duplo estigma: estarem numa prisão da PIDE e sob o olhar reprovador das companheiras de cela. As duas encontraram-se na prisão em 1961, Julieta Gandra foi posta em liberdade em 1965, mas a relação prolongou-se até 1984, ano da morte de Fernanda de Paiva Tomás. Esta foi a mulher que cumpriu a maior pena de prisão política aplicada pela PIDE: nove anos e nove meses (ver PÚBLICO de 22/10/2007).
A sua história de amor marcou de tal forma a memória das prisões políticas do Estado Novo que, décadas depois, quando elaborou as suas memórias, Maria Eugénia Varela Gomes ainda criticou as duas mulheres. A relação permaneceu mais ou menos esquecida, ou foi relatada apagando a parte amorosa e o escândalo que causou.
Ainda hoje provoca constrangimento abordar o assunto entre os meios da oposição antifascista e comunistas, reconhece o membro do Comité Central do PCP Ruben de Carvalho.
"O caso da Julieta Gandra e da Fernanda de Paiva Tomás foi mais complicado porque foi dentro da cadeia e foi uma coisa para que nenhuma das mulheres que estavam presas estava preparada. Não estavam preparadas para viver com aquilo na cela, onde até havia crianças", diz à Pública Ruben de Carvalho, frisando que se "vivia no Portugal dos anos 60". Este dirigente comunista acrescenta outro nível de análise: "São duas intelectuais de boas famílias, não foi uma história entre mulheres operárias ou de origem operária ou rural." E, diz, "a hostilidade que a Fernanda da Paiva Tomás sentiu na cela" por parte das outras dirigentes e militantes comunistas terá contribuído para a sua ruptura com o PCP pela extrema-esquerda.
PCP: o caso Fogaça
A homossexualidade de Fernanda de Paiva Tomás nunca foi usada publicamente pela PIDE - sublinha Ruben de Carvalho -, assim como nunca usou um outro caso importante na história das prisões políticas que foi o da prisão do dirigente de topo do PCP, Júlio Fogaça, numa pensão da Nazaré com o seu companheiro, em 1960.
Na ficha da PIDE de Fogaça, além da condenação política enquanto dirigente do PCP, está escrito: "Julgado em 6-4-962 pelo Tribunal de Penas, tendo sido classificado de pederasta passivo e habitual na prática de vícios contra a natureza." Um tipo de registo que, segundo explica à Pública a historiadora Irene Pimentel, "não é muito visível nos processos da PIDE e que não é nada evidente no caso das mulheres". Curiosamente, frisa, a homossexualidade de Fogaça só seria usada para o denegrir pelo inspector da PIDE Fernando Gouveia nas suas memórias, mas depois do 25 de Abril.
Se a PIDE não usava estas informações para atacar politicamente o PCP, nos meios homossexuais havia medo de que as denúncias à polícia chegassem à PIDE. Há, de acordo com vários homossexuais e lésbicas ouvidos pela Pública, memória de homossexuais "incomodados" pela PIDE. "A perseguição vivia muito da denúncia e a PIDE também pagava por informações sobre comportamentos homossexuais", confirma o artista plástico Óscar Alves.
Ruben de Carvalho destaca o facto de a PIDE nunca ter usado informação sobre a sexualidade dos presos precisamente por o fascismo ter uma "forma especial de tratar a homossexualidade", não a reconhecendo mas permitindo-a em certas elites - Paulo Rodrigues, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, era publicamente conhecido como homossexual e despachava diariamente com Salazar.


