O ser humano alterou a Terra nos últimos 50 anos a uma velocidade sem precedentes. E esta tendência compromete a manutenção de serviços básicos que o planeta oferece e que sustentam a própria civilização humana, a começar pela disponibilidade de água.
Este panorama é traçado num vasto estudo global - a Avaliação dos Ecossistemas do Milénio -, cujos resultados são apresentados hoje em vários pontos do mundo, inclusive Portugal. Não é apenas mais um relatório sobre o estado do ambiente. Lançado pelas Nações Unidas há quatro anos, a Avaliação do Milénio procura analisar não tanto as alterações do planeta em si, mas antes os efeitos destas modificações sobre os chamados "serviços dos ecossistemas".
As conclusões desta "primeira auditoria ao capital natural da Terra", como diz o estudo, não são boas. Dos 24 serviços avaliados, 16 estão em degradação (ver quadro).
Os que se salvam estão, na sua maioria, relacionados com a produção de alimentos. Entre 1960 e 2000, "a produção total de alimentos aumentou duas vezes e meia, enquanto o número de pessoas duplicou", diz uma mensagem dos directores da Avaliação do Milénio. Ou seja, o mesmo planeta é capaz, hoje, de produzir mais vegetais e mais carne do que no passado.
O mesmo se passa com a aquacultura: os ecossistemas aquáticos produzem cada vez mais peixes de viveiro. Em contrapartida, os stocks de peixes no mar estão a diminuir drasticamente.
Em quase tudo o resto, a situação está a piorar. Os diferentes ecossistemas da Terra têm menor capacidade, hoje, para purificar o ar, fornecer água doce e limpa, combater a erosão, limitar as pestes e regular o clima a nível regional. Também mais reduzida é a disponibilidade de produtos úteis para fins medicinais, de recursos genéticos e de paisagens esteticamente agradáveis.
No balanço final, o estudo reconhece que as alterações nos ecossistemas trouxeram ganhos nítidos para o bem-estar humano e o desenvolvimento económico. Mas o custo a pagar é a degradação dos próprios ecossistemas, com impactos problemáticos no futuro.
O estudo chama a atenção para a possibilidade de aumento na frequência de alterações abruptas - como o surgimento de "zonas mortas" em águas costeiras (com carência excessiva de oxigénio), o colapso das pescas e alterações regionais no clima.
Instrumento de trabalho para os decisores
A Avaliação do Milénio custou 24 milhões de dólares (19 milhões de euros) e envolveu cerca de 1900 cientistas, de diferentes organismos, sob o comando do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP). O modelo da avaliação foi inspirado no Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas. Ou seja, a Avaliação do Milénio não produziu investigação nova, mas fez uma síntese da produção científica sobre o estado dos ecossistemas e dos serviços naturais que podem beneficiar o homem.
Segundo Walt Reid, director executivo da Avaliação do Milénio, o trabalho focaliza as relações entre as pessoas e o ambiente. "É mais sobre temas do desenvolvimento do que sobre temas ambientais", disse Reid ao PÚBLICO.
Com a tendência actual de degradação dos ecossistemas, será mais difícil cumprir as Metas do Milénio, estabelecidas em 2000 pelas Nações Unidas - como o de reduzir para a metade, até 2015, o número de pessoas que passam fome ou que não têm acesso a água de qualidade.
O relatório acredita que a degradação pode ser revertida, desde que haja alterações políticas e institucionais profundas. Walt Reid aponta, como exemplo, o fim dos subsídios à pesca excessiva e a práticas agrícolas nocivas para o ambiente.
Resta saber de que forma os documentos da Avaliação do Milénio serão usados pelos governos, agências e organizações internacionais. "Os decisores tinham de ter esta informação à sua frente antes de tomarem decisões", diz Reid. "Vamos esperar e ver."


