Alexandra: Advogado indignado e "pais" desolados por não conseguirem vistos

27.05.2009 - 15:13 Por Lusa, PÚBLICO
A família de acolhimento da menina russa entregue à mãe biológica por determinação da Justiça portuguesa viu hoje goradas as expectativas de viajar para a Rússia para participar num programa televisivo e ver a pequena Alexandra.
Até às 13h00, os pais que a menina conheceu até aos seis anos de idade, Florinda e João Pinheiro, permaneceram com o advogado, João Araújo, à porta da Embaixada da Rússia em Lisboa na esperança de ainda conseguirem obter os vistos, mas a viagem de avião, marcada para as 15h30, acabou por ficar inviabilizada.
Perante a indignação do advogado e a desolação dos "pais", as horas foram passando sem que da parte da embaixada houvesse qualquer explicação aos jornalistas, sendo apenas transmitido por uma assessora que poderiam pedir para falar com o vice-consul a partir das 15h00.
Para o advogado, tratou-se de "uma brincadeira inexplicável com a dignidade das pessoas", já que iriam viajar para a Rússia "a convite do primeiro canal público de televisão" daquele país, com o compromisso de todas as formalidades tratadas e despesas pagas.
Segundo informações da embaixada ao PÚBLICO, a recusa de visto prende-se precisamente com o facto de não ter entrado nos serviços um convite oficial do canal de televisão ao pais, um documento obrigatório para a emissão de autorização para viajar. Quando o convite chegar, disse a assessora de imprensa Elena Viksne, a embaixada está disponível para emitir os vistos.
Hoje, na embaixada, disseram-lhes que era necessário "um convite oficial". O advogado interroga-se: "Será que um convite oficial é um fax do director da estação de televisão russa para a embaixada? Não sei, mas não estamos a falar de um canal regional, custa-me acreditar que não saibam tratar do que é necessário".
"Estamos aqui desde as 9h30, conforme nos foi solicitado pela TV russa, que nos disse que tratou de tudo e entrou em contacto com a embaixada", disse aos jornalistas João Araújo à porta da representação diplomática da Rússia em Lisboa.
De acordo com o advogado, a Embaixada de Portugal na Rússia não levantou problemas e até conseguiu que lhe disponibilizasse os tradutores para o programa russo.
"É uma vergonha, fomos convidados para um programa russo e agora somos confrontados aqui com este boicote de não passarem os vistos", disse à Lusa João Pinheiro, recordando que aceitou logo o convite quando lhe disseram que iria ver a menina que foi forçado a deixar partir para a Rússia.
"Disseram-nos que faltavam uns requisitos da parte da TV russa. Da nossa parte está tudo bem", afirmou.
Tanto João Pinheiro como o advogado acreditam que há interesse em abafar o caso e a cobertura mediática e sentem falta de apoio por parte das autoridades portuguesas.
"A ideia é acabar com isto, para não se falar mais. Somos muito pequenos", desabafou João Pinheiro.
A menina de seis anos, filha de uma imigrante russa, estava à guarda da família de Barcelos há quatros anos, mas uma decisão judicial de 2008 determinou que fosse devolvida à família biológica, apesar dos problemas de alcoolismo que os técnicos referenciaram na mãe. O pai, ucraniano, vive actualmente em Espanha.
Na semana passada, a criança, que fala apenas português, passou a viver com a mãe e a avó numa cidade russa, a 350 quilómetros de Moscovo.
Procurador confia que criança será protegida
Entretanto, o representante do Ministério Público na Comissão de Protecção de Crianças escusou-se hoje a comentar a decisão judicial de entregar a menina russa Alexandra à mãe, mas manifestou confiança de que a criança será protegida na Rússia.
A Rússia está sujeita à Convenção Internacional dos Direitos da Criança "e vai com certeza proteger a menina dentro dessa mesma convenção", disse o procurador-geral adjunto Maia Neto, em Caminha, à margem de uma marcha de sensibilização para os direitos das crianças.
O responsável afirmou não ter "dados concretos" para avaliar se a entrega de Alexandra à mãe biológica foi a melhor decisão para a menor, afirmando que só conhece o caso através da imprensa, e não do processo

