Actualização - Fraude nos selos

Acusações contra Afinsa e Fórum Filatélico são semelhantes

11.05.2006 - 17:26 Por Lusa

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A procuradoria concluiu que a Fórum Filatélico actuava de forma “fraudulenta, num negócio piramidal e condenado ao fracasso” A procuradoria concluiu que a Fórum Filatélico actuava de forma “fraudulenta, num negócio piramidal e condenado ao fracasso” (Toni Albir/EPA (arquivo))
As acusações de burla contra as empresas Afinsa e Fórum Filatélico, divulgadas hoje pela Audiência Nacional, são praticamente idênticas, ainda que apenas no caso da primeira figure a acusação de falsificação de selos.

O sumário da queixa contra a Fórum Filatélico, que foi revelado hoje - véspera das audiências esperadas dos dirigentes das duas firmas acusados e actualmente detidos - acusa a empresa de burla, branqueamento de capitais, insolvência punível e administração desleal.

Estas são acusações idênticas às contidas no sumário contra a Afinsa, do empresário Albertino Figueiredo, divulgado algumas horas antes e que responsabiliza directamente cinco quadro dirigentes da empresa e dois outros responsáveis de empresas que alegadamente mantinham relacionamentos com a primeira.

O processo de acusação contra a Fórum Filatélico imputa responsabilidades directas ao presidente do grupo, Francisco Briones, e aos conselheiros Miguel Angel Hijón, Agustín Fernández Rodríguez, Juan Maciá Mercadé e Francisco José López Gilarte, actualmente em liberdade.

A procuradoria anti-corrupção justifica as acusações explicando que a rede comercial da Fórum Filatélico conseguiu "importantes investimentos da parte de pessoas a que entregavam lotes de selos claramente sobrevalorizados e posteriormente rendimentos de juros que não eram mais que parte do dinheiro recebido dos próprios clientes".

O sumário contra a Fórum Filatélico qualifica a operação como "um mecanismo fraudulento, um negócio piramidal, carente de lógica económica e condenado ao fracasso".

Argumentos idênticos aos contidos no sumário da acusação contra a Afinsa, no qual se apontam os responsáveis da empresa como responsáveis pelo mesmo leque de crimes.

No sumário de acusação à Afinsa, a procuradoria considera que a empresa está hoje numa situação de "absoluta insolvência" e classifica a operação como fraudulenta.

Segundo o documento, a situação levou a empresa a registar em 2004 um "défice patrimonial" de 1105 milhões de euros.

Num comunicado distribuído depois de conhecida a acusação, a Afinsa rejeitou "categoricamente" as queixas que lhe são imputadas, afirmando que sempre operou "sob estrita legalidade" e reiterou ter condições para devolver os fundos aos seus clientes.

O comunicado refere que a Afinsa considera que os delitos imputados carecem de fundamento, confiando que "o processo de instrução a decorrer de forma célere para zelar ao máximo pelos interesses de todos os seus clientes, empregados, colaboradores e provedores".



Albertino Figueiredo: rei dos selos é de Viseu

Tem uma cátedra na Universidade de Santiago de Compostela com o seu nome, foi empresário do ano em Espanha em 1989, tem uma fundação, é dono da maior empresa de filatelia do mundo, mas muito poucos em Portugal saberão quem é Albertino de Figueiredo, o dono da Afinsa, agora no centro de um caso de suspeita de ter lesado mais de 300 mil pessoas, e que ontem foi detido na sequência da investigação das autoridades espanholas.
Albertino de Figueiredo nasceu em Oliveirinha (Viseu) a 2 de Janeiro de 1931. Desde cedo começou a ajudar o pai nos negócios de uma empresa de camionagem. Licenciou-se em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico de Lisboa, mas voltou para Viseu, onde foi director comercial de um estabelecimento de distribuição de automóveis. Vai progredindo à frente dos negócios da família, até que, segundo uma biografia feita pela revista Focus, a falta de apoio médico em Portugal para a poliomielite de uma filha o faz mudar-se para Madrid.
Mas não foi a mudança para Madrid que o fez mudar de ramo. Lá continuou a trabalhar no sector automóvel, como engenheiro mecânico, ficando na mesma fábrica durante 23 anos, tendo subido até ao cargo de director. Foi só em 1980 que decidiu que a sua faceta de coleccionador de selos, que tinha iniciado aos oito anos, afinal podia ser um bom negócio e se lançou na criação da Afinsa.
O valor dos selos já o tinha começado a perceber uns anos antes, em 1975. Um galego, que tinha uma loja de selos em Madrid onde Albertino costumava ir, tinhao contactado a oferecer um selo raro pelo qual pediu o equivalente a três anos de ordenado do então director de produção de uma fábrica de automóveis. O português acabava de receber a herança dos seus pais, mas não podia levar o dinheiro para Madrid, nem o galego queria receber o dinheiro em Portugal. Mas deu-lhe a solução para o problema: transformar o dinheiro em selos em Portugal, que ele próprio lhos compraria em Espanha.
O espaçoso Dodge de Albertino passou, então, a fronteira carregado de selos, que a Guarda Fiscal, em Vilar Formoso, demorou a aceitar que tinham apenas valor sentimental. Quando chegou a Madrid, sem que Albertino negociasse, o galego pagou-lhe o dobro do que os selos tinham custado em Portugal. “Pareceu-me um bom negócio, mas estava mal feito. Ninguém fazia nada para prestigiar a filatelia. No espírito da gente estava que era uma brincadeira para crianças e reformados e, no fundo, faziam-se grandes negócios escondidos. Era impressionante. Eu pensei em fazer algo diferente”, contou.
Albertino de Figueiredo começou, então, a usar as férias para estagiar em casas de filatelia. Em 1980 cria a Afinsa, mas durante oito anos ainda conciliará a empresa com o emprego na fábrica, onde chegou dirigir seis mil pessoas. Em 15 anos torna-se o maior comerciante de selos do mundo. Uma situação que explica com a valorização que os selos conheceram: desde o seu aparecimento, em 1840, aumentaram 13 mil vezes de valor. “É mais rentável que a banca, mais seguro que a bolsa e mais acessível que o imobiliário”, disse.
A sua própria colecção, a maior de selos portugueses, tem mais de cinco mil folhas. Mas Albertino de Figueiredo também tem uma colecção de arte, que reúne obras de Renoir, Picasso, Miró e Vieira da Silva. Tem casas em Madrid, Pamplona, Paris e no Mónaco e nos últimos anos foi várias vezes apontado e premiado como caso de sucesso empresarial nas economias ibéricas. Isso valeu-lhe mesmo a condecoração oficial portuguesa, concedida pelo então embaixador português em Madrid, Martins da Cruz, que mais tarde haveria de convidar para a administração do grupo.Eunice Lourenço/PÚBLICO

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