Dois meses depois do início da relação, Ana Rita (nome fictício) descobriu a “faceta agressiva” da parceira. Era uma “pessoa irritável”, já desconfiava, mas não a imaginava violenta. Afinal, conhecia-a “há dois anos”. “Nunca me passou pela cabeça”, diz.
O primeiro sinal de agressividade surgiu repentinamente, tal como haveriam de despontar as situações que se seguiram. Uma discussão que acabou com um estalo, um acto que Ana Rita achou “normal”. “Pensei: 'Bem, as pessoas às vezes exaltam-se…’ Sinceramente, não prestei grande atenção.”
À medida que a relação avançava, a violência psicológica começou a inscrever-se na rotina diária de Ana Rita. Era regularmente surpreendida pelas “explosões” da namorada, que se traduziam em insultos, “saídas desrespeitosas e desnecessárias”, um tom de voz irascível. A partir de uma fase marcada por um “problema pessoal, normal entre casais”, as discussões tornaram-se constantes. Ao contrário daquele “outro estalo”, julgado inocente, aquilo que viria a acontecer já seria “difícil de pôr de lado”.
“Em plena discussão, ela atirou-me para o sofá e apertou-me pescoço, durante algum tempo. Não conseguia respirar, falar, nem a conseguia tirar de cima de mim. Entretanto, ela lá me largou. Fiquei em estado de choque.”
Ao longo de quase dois anos – ou seja, “praticamente a relação inteira” –, os episódios de violência foram ganhando terreno e, até hoje, Ana Rita não consegue perceber o porquê destes impulsos. Reflecte, hesita, mas acaba por dizer que “não se tratava de ciúmes”.
“De certeza. A violência emergia de situações muito estúpidas. Por exemplo, uma vez, ao levantar-me do sofá, deitei um prato ao chão sem querer e isto foi o suficiente para ela começar uma discussão comigo”, conta. Era imprevisível. “Quando ela não se sentia confortável com o rumo da conversa, descontrolava-se.”
Nada de queixas
Há cerca de três meses, depois de ter sido “confrontada por uma amiga” sobre aquilo por que estava a passar, decidiu fazer “cortes crescentes” no namoro, até terminar definitivamente.
“Como aguentei? Não faço ideia.” Ri, nervosamente, enquanto ensaia círculos na mesa com o açúcar do café. “Chegava a pensar que se calhar merecia, que era eu que a irritava porque podia ter uma personalidade provocatória. E tinha sentimentos muito fortes por ela.” Foi uma experiência “irónica”, diz Ana Rita.
“Há três anos que sou activista dos direitos LGBT e fui coordenadora de uma associação na qual dizíamos às pessoas que a violência entre homossexuais é um crime. E lá andava eu, com vergonha de falar sobre isso e a negar a mim mesma que estava a ser vítima de violência no namoro.”
Ana Rita não teve coragem de contar à família. Tinha assumido à mãe que era lésbica há pouco tempo e não quis “atirar mais preocupações para cima dela”. “Falei com os meus amigos mais próximos”, refere.
Pensou em fazer queixa à polícia, mas desistiu rapidamente. “Receava que o assunto fosse relevado, que sofresse discriminação e represálias”, justifica. Mais do que o preconceito, Ana Rita condena a “falta de informação”.
A sociedade ainda é dominada “pela noção de que duas pessoas do mesmo sexo não têm necessidade de marcar uma posição”, de que a violência doméstica é apenas semeada pelo sexismo.


