“A peregrinação não é uma varinha mágica que soluciona todos os problemas”, avisa o bispo de Leiria-Fátima

13.05.2009 - 07:57 Por Patrícia Carvalho
O bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, afirmou, ontem, que não se pode deixar “que a crise económica se transforme em exclusão violenta”, defendendo que essa situação só se evita “com a contribuição de todos: Estado, empresas, trabalhadores, sindicatos e sociedade civil”. Enquanto o recinto do Santuário de Fátima se enchia, cada vez mais, de peregrinos, o bispo, em conferência de imprensa, lembrou que “a peregrinação não é uma varinha mágica que soluciona todos os problemas”.
Sem nunca se referir aos acontecimentos violentos do Bairro da Bela Vista, em Setúbal, D. António Marto classificou as consequências da crise económica, sobretudo o desemprego, como “um verdadeiro drama”, mas avisou que os sentimentos “compreensíveis” de “fracasso, protesto e revolta não podem transformar-se em exclusão social violenta”. Para o evitar, é necessário o empenho de todos, “uma política social renovada” e “um novo sentido de responsabilidade das empresas”, disse, acrescentando: “Têm que compreender que o trabalhador não é um mero componente da empresa, é uma pessoa com expectativa, projectos e obrigações que vão para além do tempo passado no trabalho.”
No final das celebrações de hoje, o bispo disse esperar que as pessoas levem “confiança e esperança”, para que, trabalhando em rede e através da solidariedade, se encontrem novas soluções para a crise. Palavras repetidas pelo cardeal ”scar Andrés Rodriguez Maradiaga, presidente da Caritas Internacional, e que preside, este ano, à peregrinação. “A ganância tem limites. Quando reconhecermos isto é que começamos a dar solução às crises. E a solução cristã chama-se solidariedade”, defendeu.
Ao longo do dia, o recinto foi-se enchendo cada vez mais. Os que chegavam a pé não continham as lágrimas e os abraços. De alívio, por terem chegado, de emoção por estarem ali, de algo mais que não sabem explicar, confessam. Hoje, não se sabe quantas pessoas estarão no santuário. A Protecção Civil diz estar preparada para receber 350 mil pessoas, mas os responsáveis da igreja são cautelosos, lembram que é um dia de semana e que as pessoas têm de trabalhar.
Conceição é uma das pessoas que chegam a chorar. É já a quinta vez que entra no recinto do santuário depois de dias a caminhar, desde Gaia, mas não adianta. “Fico sempre emocionada. Alcançar uma coisa que é, assim, difícil, e ver o que passam as pessoas que nos acompanham, algumas doentes, não é fácil.” De joelhos, muitas pessoas cumprem promessas. Com a chegada dos grupos, vão sendo cada vez mais. Poucas rastejam penosamente até à Capela das Aparições. Apesar dos milhares de pessoas que, já ontem, acorreram a Fátima, não houve problemas graves. Ao final da tarde, o posto de socorro do santuário tinha atendido 398 pessoas e entre os casos atendidos pela Protecção Civil apenas três foram encaminhados para os serviços hospitalares.


