Pode não ser muito evidente, mas a separação entre Portugal e Espanha é uma coisa cada vez mais diluída e, nalguns casos, até já arcaica e ultrapassada. Consequência em grande parte da adesão conjunta à então CEE, em 1986, mas também da construção e renovação dos eixos de ligação entre os dois territórios, o que, aliado à abolição das fronteiras, converteu os dois países numa realidade miscível, hoje bem mais definida pelas afinidades regionais que pelas simbólicas linhas de fronteira.
Aos menos atentos, bastaria um rápido olhar pelas conclusões da recente cimeira luso-espanhola e ver a quantidade de projectos e iniciativas conjuntas que ao nível oficial se desenvolvem actualmente. Da Defesa ao Ambiente, da Saúde à Justiça, é cada vez maior o nível de cooperação e integração, numa lógica cada vez mais ibérica e impulsionada pelas afinidades e complementaridades regionais. E se no que respeita à lógica global dos grandes grupos económicos já não há Lisboa e Madrid, mas antes Lisboa ou Madrid, já quanto às regiões transfronteiriças a lógica é crescentemente de união.
Não é por acaso que nas últimas cimeiras luso-espanholas os governantes se têm feito acompanhar dos representantes das autonomias e das nossas CCDR, estando também hoje em Braga todos os mais altos representantes políticos de ambos os países, incluindo o Rei de Espanha, o Presidente da República português e os chefes dos respectivos governos. As relações comerciais entre os dois países ultrapassam já os 25 mil milhões de euros anuais e no tecido empresarial há muito que se vem consolidando a ideia de que tudo funciona numa lógica de mercado único, tal como sublinham as conclusões da última cimeira.
São conhecidos os casos de hospitais que servem as comunidades de ambos os lados, dos centros de emprego conjuntos ou de parcerias universitárias, mas também ao nível da administração pública as comunidades de trabalho reunindo representantes dos dois lados são uma realidade instalada. É assim com o Algarve ou o Alentejo e a Extremadura espanhola, o Centro e o Norte com Castela-Leão, o Norte com a Galiza, mas também entre a Madeira e as Canárias, embora noutros moldes institucionais. É através destas associações que têm sido investidos muitos dos fundos comunitários, com destaque para o Norte e a Galiza, que ainda há dias se associaram com o propósito de preparar uma estrutura única para negociar com Bruxelas as verbas do próximo quadro comunitário.
Para se ter uma ideia do grau de complementaridade entre as duas regiões, diga-se que só o movimento diário na fronteira de Valença representa cerca de metade do total das ligações entre os dois países, ou que um em cada cinco passageiros que utilizam o aeroporto do Porto é galego. Como região, a Galiza é hoje um dos parceiros económicos mais importante para Portugal no seu todo, sendo que o volume de negócios é já superior às transacções com Itália e próximo de mercados tradicionais como o Reino Unido ou a França.
Tal como no Centro de Nanotecnologias, em todos os projectos transfronteiriços funciona o princípio de liderança espanhola quando instalados em Portugal e vice-versa. Assim acontecerá também com o recentemente lançado Centro Ibérico de Energias Renováveis e Eficiência Energética, que ficará em Badajoz e será dirigido por um português.


