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O Povo versus a Polícia

10.11.2011 - 00:07 Por Naomi Wolf

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Os políticos da América, ao que tudo indica, tiveram o seu limite de democracia. Em todo o país, a polícia, agindo sob ordens de autoridades locais, está a pôr termo aos acampamentos de protesto, criados pelos apoiantes do movimento Occupy Wall Street (OWS) – por vezes com violência chocante e totalmente gratuita.

No pior incidente até agora registado, centenas de polícias, munidos de capacetes, máscaras e escudos, cercaram o acampamento Occupy Oakland e dispararam balas de borracha (que podem ser fatais), granadas flash, e latas de gás lacrimogéneo – com alguns agentes a apontar diretamente para os manifestantes. Na página do Twitter do movimento Occupy Oakland, pode ler-se um género de relatório feito na praça central do Cairo, Tahier Square: "eles estão a cercar-nos"; "centenas e centenas de polícias"; "há veículos blindados e Hummers". Houve 170 detenções.

A minha recente detenção, enquanto obedecia às condições de uma manifestação autorizada, calma e pacífica, numa das ruas da baixa de Manhattan, revelou a realidade desta repressão perto de casa. A América está a despertar para o que foi construído enquanto dormia: empresas privadas contrataram a polícia (JPMorgan Chase deu $4,6 milhões à Fundação New York City Police); o Departamento Federal de Segurança Interna deu pequenos sistemas de armas de nível militar às polícias municipais; os direitos dos cidadãos à liberdade de expressão e à reunião foram sorrateiramente enfraquecidos por requisitos de autorização muito pouco transparentes.

De repente, a América assemelha-se ao resto do mundo furioso, que protesta e que não é totalmente livre. Na verdade, a maioria dos comentadores ainda não se apercebeu que está a ocorrer uma guerra mundial. Mas não é comparável a nenhuma outra guerra passada na história da humanidade: pela primeira vez, os povos de todo o mundo não se identificam ou organizam por motivos nacionais ou religiosos, mas sim por uma consciência global e pela procura de uma vida pacífica, um futuro sustentável, uma justiça económica, e uma democracia de base. O seu inimigo é uma "corporocracia" global que comprou governos e legislaturas, criou os seus próprios agentes armados, está envolvida numa sistémica fraude económica, e espolia tesouros e ecossistemas.

Em todo o mundo, manifestantes pacíficos estão a ser demonizados por estarem a perturbar. Mas a democracia é perturbadora. Martin Luther King, Jr., argumentou que a perturbação pacífica do "como se nada fosse" é saudável, porque expõe a injustiça enterrada, que pode assim ser resolvida. Os manifestantes devem, preferencialmente, dedicar-se à perturbação disciplinada e sem violência neste espírito - sobretudo na perturbação do trânsito. Isto serve para evitar os provocadores, ao mesmo tempo que se destaca a injusta militarização da resposta policial.

Além do mais, os movimentos de protesto não têm sucesso em horas ou dias; eles normalmente envolvem permanência ou "ocupação" em áreas, durante longas jornadas. Essa é uma razão pela qual os manifestantes devem angariar o seu próprio dinheiro e contratar os seus próprios advogados. A "corporocracia" está aterrorizada com a possibilidade de os cidadãos virem a reclamar o Estado de direito. Em cada país, os manifestantes devem colocar em campo um exército de advogados.

Os manifestantes devem também encarregar-se pessoalmente da cobertura das suas notícias, ao invés de recorrerem aos principais meios de comunicação para o fazer. Eles devem escrever em blogues, twittar, escrever editoriais e comunicados de imprensa, assim como também documentar casos de abuso de autoridade policial (e os abusadores).

Há, infelizmente, muitos casos documentados sobre demonstrações violentas de provocadores infiltrados em lugares como Toronto, Pittsburgh, Londres, e Atenas – pessoas que são, como um Grego me de descreveu, "desconhecidos conhecidos". Os provocadores, também, precisam de ser fotografados e registados, daí ser tão importante não tapar o rosto enquanto se manifesta.

Os manifestantes, em regimes democráticos, devem criar localmente listas de endereços eletrónicos, fundir as listas a nível nacional, e começar a registar os eleitores. Devem comunicar aos seus representantes o número de eleitores que registaram em cada distrito – e devem destituir os políticos que são brutos ou repressivos. E devem apoiar aqueles – como, por exemplo, em Albany, Nova Iorque, onde a polícia e o procurador local recusaram reprimir os manifestantes – que respeitam os direitos à liberdade de expressão e à reunião.Muitos manifestantes insistem em permanecer sem um líder, o que é um erro. Um líder não tem que se sentar no topo de uma hierarquia: um líder pode ser um simples representante. Os manifestantes devem eleger representantes por um período finito, como em qualquer democracia, e formá-los para saberem falar com a imprensa e para negociarem com os políticos.

Os protestos devem modelizar o tipo de sociedade civil que os manifestantes pretendem criar. Na zona baixa do parque Manhattan Zuccotti Park, por exemplo, há uma biblioteca e uma cozinha; a comida é doada; as crianças são convidadas a dormir; e organizam-se conferências. Os músicos devem trazer instrumentos, e o ambiente deve ser alegre e positivo. Os manifestantes devem limpar a área onde decorreu o protesto. A ideia é construir uma nova cidade dentro da cidade corrupta, e demonstrar que a nova cidade reflete a maioria da sociedade, e não a pequena franja destrutiva e marginal.

Afinal de contas, o que é mais profundo nestes movimentos não são as suas demandas, mas sim a infra-estrutura emergente de uma humanidade comum. Durante décadas, os cidadãos foram induzidos a manterem-se cabisbaixos – fosse num mundo consumista de fantasia, ou com pobreza e trabalhos forçados – e a entregarem a liderança às elites. O protesto é transformador exatamente porque as pessoas emergem, encontram-se cara a cara, e, reaprendem os hábitos de liberdade, constroem novas instituições, relacionamentos, e organizações.

Nada disto pode acontecer num ambiente de violência política e policial contra os manifestantes democráticos e pacíficos. Recordando a famosa pergunta feita por Bertolt Brecht, ao acompanhar as brutais repressões nos trabalhadores que protestavam em junho de 1953, "Não seria mais fácil...para o governo dissolver o povo e eleger outro?". Em toda a América, e em muitos outros países, supostos líderes democráticos parecem ter levado a pergunta irónica de Brecht muito a sério.

Tradução Project Syndicate

Texto corrigido às 13h57 de 15 de Novembro

Naomi Wolf
  • Activista política, crítica social e defensora destacada da “terceira via” no feminismo
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