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A globalização da ameaça nuclear iraniana

16.02.2012 - 17:16 Por Itamar Rabinovich

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O movimento actual para impedir o Irão de desenvolver um arsenal nuclear reflecte duas mudanças importantes e interligadas. Da perspectiva de Israel, estas mudanças serão bem-vindas, embora o seu governo deva permanecer cauteloso sobre o papel do próprio país.

A primeira mudança é a intensificação de esforços por parte dos Estados Unidos e dos seus aliados ocidentais para abortar a pesquisa nuclear do regime iraniano. Isto foi instigado em parte pela descoberta da Agência Internacional de Energia Atómica, em Novembro de 2011, de que o Irão está de facto a desenvolver uma arma nuclear, e que está a ficar perigosamente perto de atravessar a “linha vermelha” – o ponto a partir do qual o seu progresso já não pode ser parado. Além disso, os EUA e os seus aliados compreendem que um falhanço em tomar medidas sérias pode incitar Israel a lançar a sua própria ofensiva militar unilateral.

A segunda mudança é a percepção de que a capacidade nuclear iraniana não ameaçaria apenas Israel. Num discurso à União pelo Judaísmo Reformista em Dezembro, o Presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou que “uma outra ameaça para a segurança de Israel, dos EUA e do mundo é o programa nuclear do Irão”. Mas, neste Fevereiro, Obama dizia do Irão: “a minha prioridade número um continua a ser a segurança dos EUA, mas também a segurança de Israel, e continuamos a trabalhar a par e passo à medida que tentamos resolver a situação...”

Essa escolha de palavras não foi acidental; antes, foi um sinal de que os EUA estão a mudar de rumo no que diz respeito ao Irão. Durante mais de uma década, a pergunta “Este tema é de quem?” tem feito parte do debate político sobre as ambições nucleares do Irão. O antigo primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, costumava prevenir os seus colegas contra “chegar-se à frente da fila” relativamente ao Irão. Ele argumentava que se Israel fosse o primeiro a soar o alarme sobre as ambições nucleares do Irão, o assunto seria entendido como mais um “problema israelita.”

Na verdade, os críticos de Israel já argumentavam de que este era um outro caso de cauda a abanar o cão [no original: “tail wagging the dog” – NdT] – que Israel e o seu lóbi norte-americano tentavam empurrar os EUA a servir os interesses de Israel mais do que os seus próprios. Os mais notáveis exemplos deste ponto de vista foram declarações feitas pelos cientistas políticos John Mearsheimer e Stephen Walt. Num artigo publicado antes do lançamento do seu muito comentado livro The Israel Lobby [O Lóbi de Israel], defendiam:

“... as ambições nucleares do Irão não constituem uma ameaça existencial aos EUA. Se Washington pôde viver com uma União Soviética nuclear, com uma China nuclear e até com uma Coreia do Norte nuclear, então também pode viver com um Irão nuclear. E é por isso que o lóbi [de Israel] deve manter pressão constante nos políticos dos EUA para confrontar Teerão.”

O actual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem estado menos preocupado que Sharon sobre o papel apercebido de Israel. Está muito ocupado a empenhar-se directamente na tentativa de eliminar a ameaça mortífera que um Irão com armas nucleares colocaria ao estado judeu.

Antes da eleição de 2009 que o levou ao poder, Netanyahu fez campanha contra o perigo iraniano, e o seu governo fez do assunto a sua preocupação principal. Juntamente com o seu ministro da defesa, Ehud Barak, Netanyahu conseguiu convencer Obama e o resto do mundo de que Israel estava a preparar um ataque militar como último recurso, caso os EUA e os seus aliados não conseguissem interromper o programa iraniano a tempo.

Essa política tem sido eficaz, mas também tem atraído atenções sobre a influência de Israel na questão iraniana. Curiosamente, Israel não tem sido censurado por isto, pelo menos até agora, em parte porque Obama e outros líderes agora olham para o Irão como uma ameaça mais séria e, consequentemente, sentem necessidade de tomar acções apropriadas.

A comunidade internacional deve sublinhar que os seus membros estão a agir ao serviço dos seus interesses nacionais e não apenas pela causa israelita. Mas a sua vontade de envolvimento poderá desvanecer-se, especialmente se as sanções exigirem um alto preço financeiro ou se a acção militar causar um grande número de baixas.Israel deveria portanto ter a sensatez de lembrar-se das palavras de cautela de Sharon e reforçar a sua pressão no governo dos EUA com uma campanha diplomática mais ampla. Goste-se ou não, Israel deve urgir o mundo a lembrar que o Irão é um problema de todos.

Traduzido do inglês por António Chagas/Project Syndicate

Itamar Rabinovich
  • Professor universitário em Nova Iorque e Telavive, antigo embaixador de Israel nos Estados Unidos
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