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Funk norte-americano

07.02.2012 - 17:38 Por Ian Buruma

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O excêntrico intelectual bengali Nirad C. Chaudhuri explicou uma vez o fim do Raj britânico na Índia como sendo um caso de “funk”, ou perda de fibra. Os britânicos deixaram de acreditar no seu próprio império. Perderam simplesmente a vontade, nas famosas palavras de Rudyard Kipling, de combater “as guerras selvagens da paz”.

Na verdade, o poema de Kipling, The White Man’s Burden [O fardo do homem branco], que exortou a raça branca para propagar os seus valores aos “novos hostis capturados, que eram meio diabo e meio criança”, não era de modo algum sobre o Império Britânico, mas sobre os Estados Unidos. Com o subtítulo The United States and the Philippine Islands [Os Estados Unidos e as Ilhas Filipinas], foi publicado em 1899, na mesma altura em que os EUA estavam, eles próprios, a travar uma “guerra selvagem da paz”.

Chaudhuri tinha razão. É difícil suster um império sem a vontade de usar a força quando necessário. Muita retórica política e uma avalanche de livros novos far-nos-iam acreditar que os EUA são agora um perigoso estado de funk [medo].

Por exemplo, o candidato presidencial republicano Mitt Romney gosta de criticar severamente o Presidente Barack Obama por “pedir desculpas pelo poder internacional dos Estados Unidos da América” por ousar sugerir que os EUA não são “o maior país do planeta” e por ser “pessimista”. Por outro lado, Romney promete “restaurar” a grandeza e o poder internacional dos Estados Unidos, que ele propõe fazer através do aumento da força militar norte-americana.

O Kipling de Romney é o intelectual neoconservador Robert Kagan, cujo novo livro, The World America Made [O mundo que os Estados Unidos fizeram], argumenta contra o “mito do declínio norte-americano”. Sim, ele admite, a China está a crescer em força, mas o domínio dos EUA ainda é esmagador, os militares norte-americanos ainda podem “fazer boa figura” contra qualquer adversário. O único perigo real para o poder dos EUA é o “declinismo”, a perda da autoconfiança, a tentação de “fugir dos fardos morais e materiais que têm pesado sobre os [norte-americanos] desde a II Guerra Mundial”. Numa palavra, funk [medo].

Tal como Chaudhuri, Kagan é um escritor cativante. Os seus argumentos fazem sentido. E a sua avaliação do poder de fogo dos EUA é, sem dúvida, correcta. É verdade, ele tem pouco tempo para problemas internos, como as infra-estruturas obsoletas, o insucesso das escolas públicas, um horrível sistema de cuidados de saúde e as grotescas disparidades nos rendimentos e na riqueza. Mas tem toda a razão ao reparar que nenhuma outra potência ameaça usurpar o papel dos EUA como polícia militar do mundo.

Menos certo, porém, é a premissa de que a ordem mundial se desmoronaria sem “a liderança norte-americana”. O Rei de França, Luís XV, declarou supostamente no seu leito de morte: “Après moi, le deluge” [“Depois de mim, o dilúvio”]. Esta é a presunção de todas as grandes potências.

Ao mesmo tempo que os britânicos desmantelavam o seu império após a II Guerra Mundial, os franceses e os holandeses ainda acreditavam que a separação com os seus bens asiáticos resultaria no caos. E é ainda comum ouvir líderes autocráticos, que herdaram partes dos impérios ocidentais, reivindicarem que a democracia é muito bonita, mas as pessoas ainda não estão preparadas para ela. Aqueles que monopolizam o poder não conseguem imaginar um mundo liberto das suas garras sem que isso pareça uma catástrofe.

Na Europa, após a II Guerra Mundial, a Pax Americana, garantida pelo poder militar dos EUA, foi criada “para manter os russos afastados e a Alemanha reduzida”. Na Ásia, foi originalmente pensada para conter o comunismo, enquanto permitia aos aliados, do Japão à Indonésia, fortalecer a força económica. Propagar a democracia não era a principal preocupação; impedir o comunismo – na Ásia, na Europa, em África, no Médio Oriente Médio e nas Américas –, sim. Neste contexto, conseguiu, embora com grandes custos humanos.

Mas, agora que o espectro do domínio comunista mundial juntou-se a outros medos – reais e imaginários – no caixote de lixo da história, já é tempo de os países começarem a resolver os seus assuntos. O Japão, em aliança com outras democracias asiáticas, deve ser capaz de contrabalançar o poder crescente da China. Da mesma forma, os europeus são suficientemente ricos para gerirem a sua própria segurança.Mas nem o Japão nem a União Europeia parecem dispostos a recuperar as suas influências, devido, em parte, a décadas de dependência da segurança norte-americana. Enquanto o Tio Sam continuar a ser o polícia do mundo, os seus filhos não crescerão.

Em todo o caso, como já vimos no Iraque e no Afeganistão, as “guerras selvagens da paz” nem sempre são a maneira mais eficaz de conduzir a política externa. O antiquado domínio militar deixou de ser adequado para promover os interesses norte-americanos. Os chineses têm vindo a ganhar influência em África, não com bombas mas com dinheiro. Enquanto isso, apoiar ditadores seculares no Médio Oriente com armas norte-americanas ajudou a criar o extremismo islâmico, o qual não pode ser derrotado com o simples envio de mais aviões telecomandados.

A noção promovida por Romney e pelos seus apoiantes, de que só o poder militar dos EUA pode preservar a ordem mundial, é profundamente reaccionária. É uma forma de nostalgia da Guerra Fria – um sonho de voltar a uma época em que grande parte do mundo recuperava de uma guerra mundial desastrosa e vivia com medo do comunismo.

O reconhecimento de Obama das limitações dos Estados Unidos da América não é um sinal de pessimismo covarde, mas de sabedoria realista. A sua relativa discrição no Médio Oriente permitiu que as pessoas agissem por si mesmas. Nós ainda não sabemos qual será o resultado, mas “o maior país do planeta” não pode impor uma solução. Nem deve impor.

Tradução de Deolinda Esteves/Project Syndicate

Ian Buruma
  • Especialista em política, cultura e religião, é professor no Bard College
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