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Uma Primavera Russa?

04.01.2012 - 13:19 Por Dominique Moïsi

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A Rússia não é o Egipto. E Moscovo não está à beira da revolução, como o Cairo estava há menos de um ano. Na verdade, os poderosos da Rússia têm ao seu dispor capacidades que faltavam ao regime do antigo presidente egípcio Hosni Mubarak.

Por ser uma superpotência energética, a Rússia pode abrir os seus cofres para aplacar, pelo menos em parte, a humilhação que infligiu aos seus cidadãos por falsificar os resultados da recente eleição legislativa. E nem todos os russos estão nas ruas. Devemos ter cuidado com o “efeito zoom,” que fez muitas pessoas acreditarem que os jovens manifestantes da Praça Tahrir no Cairo eram inteiramente representativos da sociedade rgípcia. Não eram. O Egipto rural, como a Rússia rural, é muito mais conservador que as jovens elites que cativam a imaginação do mundo com os seus protestos e utilização dos modernos meios sociais.
Além disso, Mubarak estava velho e doente, e já não gozava da confiança do seu povo. Vladimir Putin, em contraste, transpira energia e saúde, e pode ainda tranquilizar muitos segmentos da sociedade russa cuja principal preocupação é a glória da sua nação mais do que a felicidade dos seus cidadãos.

Todavia, Putin poderá estar a jogar a carta do macho viril tão excessivamente que poderá sair-lhe o tiro pela culatra e contribuir para o seu isolamento dos eleitores urbanos e mais educados da Rússia. Mesmo que as dezenas de milhar de manifestantes sejam incapazes de ameaçar a sobrevivência do regime de Putin, o Kremlin faria bem em levá-los a sério. As marcas registadas dos manifestantes até agora foram a moderação e a contenção; nada seria mais perigoso que a repressão violenta.

Para além do tema da violência, as autoridades russas correriam um enorme risco histórico se fracassassem em registar o crescente alheamento do público. Abrigados física e metaforicamente pelos altos muros do Kremlin, e tendo progressivamente perdido contacto com as condições de vida das pessoas normais (se é que alguma vez o tiveram), os líderes da Rússia parecem considerar o seu estilo de vida como sendo simultaneamente normal e eterno.

Do ponto de vista da condenação do comportamento das elites, os manifestantes russos evocam, pelo menos parcialmente, os actores da revolução árabe. Na sua denúncia de “práticas eleitorais soviéticas,” rejeitam a combinação de despotismo e corrupção que caracterizou o poder soviético de ontem e o poder russo de hoje – retórica familiar aos revolucionários árabes. Como os jovens árabes disseram aos governantes da Líbia, Egipto, Tunísia, Síria, Iémen, e outros países árabes, esta nova geração de russos está a dizer a Putin: “Vai-te embora!”

Mas a maior parte dos participantes conserva poucas ilusões acerca da eficácia do seu protesto. Querem exprimir aos governantes da Rússia a extensão da sua frustração e determinação. Podem não esperar a mudança do regime, mas esperam pelo menos algumas reformas mínimas.

Acima de tudo, querem aplicar limites ao poder de Putin. Mas o seu protesto poderá ter uma consequência irónica, fazendo com que a mais moderada das duas figuras no cume da política russa, Dmitri Medvedev, não volte ao lugar de primeiro-ministro, como tinha sido planeado. Um jogo das cadeiras político pareceria demais aos olhos de demasiados russos.

Os protestos apanharam os senhores do Kremlin, bem como a maioria dos cidadãos russos, de surpresa. Não conseguiram reconhecer que a globalização – especialmente a revolução global da informação – tornou o mundo mais transparente e interdependente que nunca. Os manifestantes de Madrid foram inspirados pelos do Cairo, e foram eles próprios uma fonte de inspiração de Nova Iorque a Tel Aviv – e, subsequentemente, a Moscovo.

Uma lição sobressai: com o aprofundamento da crise económica, por um lado, e a conectividade global instantânea, por outro, o que foi aceite ontem é visto hoje como intolerável.

Isso também se aplica à Rússia. Durante muito tempo, a Rússia via-se como uma “África Branca.” A esperança média de vida dos homens russos, pouco abaixo dos 60 anos, é mais africana que europeia (ou mesmo que a maior parte dos países da Ásia). O enriquecimento corrupto de tantas elites russas imita os hábitos desastrosos de muitos dos seus homólogos africanos.Mas esta comparação tem limites. Apesar dos seus muitos problemas, a África de hoje tornou-se num continente de esperança. A sua população está a explodir, bem como as suas taxas de crescimento económico. As empresas senegalesas procuram ajudar os seus parceiros de negócio espanhóis, enquanto Portugal estende umas quase régias boas-vindas aos líderes da sua antiga colónia, Angola, que enriqueceu recentemente graças ao petróleo.

A África está em ascensão, enquanto a Rússia está em declínio. O idealismo democrático que acompanhou a queda do comunismo há 20 anos desapareceu, mas o “orgulho imperial” recuperado em parte durante os anos Putin pode não ser suficiente para compensar o desprezo com que o estado Russo trata os seus cidadãos. A mensagem dos manifestantes da Rússia é simples: “Tanta corrupção, tanto desprezo, e tanta desigualdade é demais.” A Rússia, da mesma maneira que o mundo árabe, quer modernidade.

Dominique Moïsi
  • Autor da obra The Geopolitics of Emotion
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