Rio avisa que a redução do número de dirigentes nas autarquias tem efeito zero nas contas nacionais

04.11.2011 - 01:20 Por Margarida Gomes
O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, criticou alguns dos aspectos da proposta de reforma administrativa do governo e disse que a redução do número de dirigentes nas autarquias não vai ter nenhum efeito nas contas do Estado.
“A redução do número de dirigentes afecta zero as contas nacionais. Qualquer poupança que daí possa haver vem em benefício da autarquia e não em benefício do pais”, disse Rui Rio, afirmando que “aquilo que o país tem de fazer é controlar o endividamento [das autarquias] e não deixar ter défice quem tem endividamento para lá daquilo que venha por lei ser estabelecido e que o actual Orçamento do Estado corta para metade [62,5%]”.
Ao intervir quinta-feira à noite num debate promovido pelo CDS sobre proposta de reforma administrativa do governo, perante uma plateia construída na sua grande maioria por autarcas, Rio apontou por diversas vezes o dedo ao governo de Pedro Passos Coelho por estar a fazer uma reforma sem estar devidamente sustentada em estudos, como ele próprio fez pouco depois de ter conquistado a presidência da segunda autarquia do país.
“Nós na Câmara do Porto fizemos uma coisa como deve ser, baseada num estudo feito pela Escola de Gestão do Porto”, adiantou o ex-vice-presidente do PSD, numa alusão ao estudo sobre a macroestrutura do município que encomendou em 2003 e que se traduziu, segundo revelou, na redução de uns 30 cargos de chefia. “Nós fizemos uma coisa como deve ser, agora dizer corta 10 [%], ou corta 15% ou corta 20, ou corta 30 ou corta 40 é fazê-lo de qualquer maneira”, criticou.
O tema do debate era as autarquias locais, mas Rio fez uma incursão pela despesa pública, dando também nota da situação financeira do país e tratou de separar águas. “São coisas completamente distintas”, disse. E contas feitas, “o global das dívidas das câmaras municipais corresponde mais ou menos a 4% do Produto Interno Bruto – é qualquer coisa da ordem dois 8 mil milhões de euros”, precisou, acrescentando que “o PIB português anda na ordem dos 160 e tal mil milhões, portanto, se a dívida pública fosse 100% do PIB português nós estávamos a comparar uma dívida de 160 e tal mil milhões com uma dívida de 8 mil milhões”. “Mas infelizmente para o país, a dívida pública não é 100% do PIB. Em minha opinião, a dívida pública ultrapassará vagamente os 200 mil milhões de euros”.
Embalado pelos números, o autarca carregou nas tintas e insurgiu-se contra as parcerias público-privadas, que, sublinhou, “ estão a esganar o país por muitos anos”.
Apesar das críticas que foram muitas, Rio entende que é preciso melhorar as autarquias, mas isto, sublinhou, ”não tem nada a ver com a dívida pública. Porque se isto estivesse a ver com a dívida pública, Portugal estava quase no Paraíso”. Depois lançou uma pergunta para o debate.
“Até onde é que deve ir a intervenção da administração local na gestão das autarquias?” A resposta surgiu logo a seguir. “A administração central tem o dever e a obrigação de controlar nas autarquias aquilo que tem impacto nacional e não tem a obrigação nem sequer o direito de se meter dentro do próprio orçamento municipal”.
Para Rui Rio, “é o endividamento que verdadeiramente tem impacto ao nível nacional”.
E nesse sentido, o autarca portuense declarou que o que uma “administração central responsável tem de fazer (…) é impor limites de endividamento às autarquias, segundo rácios muito objectivos e tecnicamente adequados. Se se tivesse feito sito hoje não tínhamos os 8 mil milhões”.
“O dever da administração central é olhar para as autarquias e impor regras quanto ao endividamento e quanto ao défice muito apertadas”, defendeu o ex-vice-presidente de Manuela Ferreira Leite.

